O mais estranho disto que se chama cultura e tem uma sociedade própria, é a “harmonia” esquizofrénica da sua expressão pública, a vida paralela dos discursos e sua penetração precária na acção cívica criativa e na vida institucional, na margem e no centro, off e in dir-se-ia na síntese lapidar e anglófila conveniente, já que hoje qualquer acção de relevo cultural é excepcional, Festival ou Capital, excepção e por consequência rasgo de luz que ilumina fugaz mas não faz luz sobre nada, período de concentração e intensidade da fruição – e da acção artística múltipla e “feirante” – discurso pleno e obcecado pelas formas espectaculares da sua visibilidade, mais publicitárias ou mais mundanas, o desfile dos objectos artísticos condenando cada objecto à hierarquizada pertença a uma sequência horizontal caminhando na superfície de um tempo veloz, de expressão efémera/descartável e não ao enraizar da sua possibilidade e potencialidades específicas de entrosamento no quotidiano ilimitado dos diversos corpos sociais, objectos fruídos convertidos em instrumentos já interiores do exercício da percepção do mundo e das leituras do real, espectadores já públicos, escolas já cidade, classes etárias diferenciadas pelas boas razões das suas especificidades, problemáticas politizadas a circular entre os corpos da sociedade, a sociedade a poder de facto observar-se nos espelhos fragmentários que possam expressar e dar espessura às imagens que os criadores sejam capazes de construir com a sua intuição inteligente, o seu talento e treino, o seu domínio da língua e das linguagens – este é o problema de fundo, o da natureza política da arte que não é nem amestrada nem decorativa, discurso comprometido com a verdade dos factos, autenticidade da ficção e não o daquela outra arte que, por relevância económica, investimento e valor-dinheiro, está presa nas malhas do poder financeiro, ou também essa outra que apenas procura ser negócio mas não é ainda valor de mercado, ouro equivalido. Essa, por estranho que pareça, tem os seus subsídios e mecenas, à riqueza privada junta dinheiro público e celebridade recorrente.
Já um outro aspecto, o da memória patrimonial vivificável, a única forma de ser memória e não cemitério, de sermos alguém, é hoje atacado pelos poderes, ou melhor, pela força avassaladora da indiferença e do desprezo que os poderes praticam em pose e estratégia (burra) – criados ricos do Capital - que no fundo entendem que tudo o que é identitário e faça mossa ao paradigma do lucro/criatividade/inovação/engrenharia/financeira/produto
especulativo é necessitado do vazio pleno do nada para afirmar o esplendor das suas novidades exactamente nessa tábua rasa criada – a desmemória - em que possam ser o astro único de um poder absoluto. A lógica neoliberal é absoluta e única, é fascista a luz que vê ao fundo do seu túnel. O desejo de qualquer discurso de poder que não seja intrinsecamente democrático é esse, o de se tornar exclusivo: um só como ponto de vista, uma só ideia única, um só país, um só olho aberto – o outro poupa e soma austeridade - visão monocular. Eles estão lá para paternalmente nos indicarem o caminho, em boa verdade como o cego que vai na frente da fila de cegos na pintura de Breughel, o velho.
Se por um lado se reivindica um direito de cidade que inclua as práticas culturais como expressão da própria cidade e por outro o poder responde sempre a estas questões falando de outras, em que ambiente estamos? Se alguém fala de alhos e o poder responde bugalhos? Se dizemos cultura e eles respondem dívida, se eles dizem dívida e dizem que a cultura é livre, quem são eles? Só há espaço para o regime de lucro de uns poucos, esse é o regime, lucro/especulativo acrescente-se.
Se o faminto é livre de morrer de fome porque há-de viver? Vivemos certamente numa realidade que perdeu a noção de si mesma, que deslaçou, que se tornou desmembrada e que já nem mesmo pode viver do que as suas próprias contradições vitais anteriores e parlamentarizadas grudassem.
É este hoje o problema: as pessoas, os artistas, as estruturas de criação, os responsáveis institucionais de casas culturais, os mediadores autárquicos encartados, os gestores de micro grupos, os fazedores de coisas, os milhares de jovens artistas saídos de escolas, falam da necessidade de integração e estruturação de um mundo que antes era precário e caminhava num impasse, de esperança mínima, para um modo de estruturação potencial – hoje regressão e descaminho - como modo de sermos um país de pessoas livres, cidade e portanto de evitar ser selva e predação, criminalidade e corrupção em horizonte, e no outro lado da ponte - quebrada - está o poder que nem sequer os vê, pois apenas vê o que active o poder imenso do escândalo incontrolável. Face a este desencontro, de que falamos quando falamos de cultura, apenas de um lugar institucional? O problema já não está aí e necessita de ser, por assim dizer, extremado, levado a limites, limites equivalentes aos do poder do escândalo, mas políticos.
fernando mora ramos
sexta-feira, 22 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
A indústria dos abismos ou os tsunamis engendrados
Nada é significativo, tudo se relativiza, mesmo o que se poderia evitar racionalmente, por decisão política e governo dos processos, lança-se como um desastre previsto sobre o corpo da maior parte das populações, mais um tsunami de um sistema de tsunamis engendrados pela relação entre os mercados e os governos, reacções aos ataques – é assim que lhes chamam - dos mercados e medidas avulsas, exclusivamente financeiras que, em nome da superação da crise são lançadas e geram os tais danos colaterais – humanos e menos relevantes que os lucros sagrados - da crise, os seus aspectos não especificamente financeiros e justamente relativizados por aqueles decisores que só vêm e jogam números e estatísticas – de que não são parte –, variáveis de uma equação especulativa global dominada pelo poder de lógicas privadas – o que aqui se passa, em boa verdade poderia apelidar-se de indústria do abismo.
O modo como o humano confina com o inumano parece fazer do inumano – o humano apenas variável estatística, indústria light da morte - uma regra aceite, erige o pragmatismo assente na inevitabilidade das relações de poder constituídas, entre colossos, em solução repetidamente mesmista quando é claro que se necessita de uma alteração radical da estrutura das relações de poder. Oh que saudades do muro e da coexistência pacífica dirão alguns.
O que é que não se compara e que o relativismo financista condena à morte em vida, máquina assassina indirecta e directa? O desemprego, a diminuição dos rendimentos do trabalho com a acumulação de lucros de meia dúzia? Sobre o que é que nem se reflecte e é território tabu, quando se tomam as mesmas medidas que nada resolvem e apenas contribuem para uma maior concentração da riqueza nas mãos de uma minoria cada vez menor? A riqueza – o poder - cada vez mais concentrada num número menor de criaturas e a pobreza que alastra não são as duas faces de uma mesma moeda? Não se comparam as casas vazias devolvidas aos bancos, as rendas inacessíveis, com as mansões e os condomínios de luxo proliferando com a crise? A paz nas choupanas e guerra aos palácios não está na ordem do dia? O resgate dos bancos feito contra o resgate da desgraça não se compara? A fome e os banquetes não têm ligação óbvia? O salário de uns e o desemprego de outros não é o resultado de um sistema de vasos comunicantes? Querem fazer de nós parvos ou a realidade é imodificável? Mas que prova a história? Não será a queda de uns e a subida de outros, sucessivamente? Onde estão as monarquias hoje a não ser na pura convenção, na fidalguia arruinada e no turismo nobilitado de habitação, a rainha a viver das entradas no palácio e ela própria postal a sépia, memória patrimonial, turismo?
Foi sempre assim? Foi, mas quem fala? Não foi e mesmo que tivesse sido, haverá necessidade de que continue a ser? É isso a modernidade? Isso mais as autoestradas? O tal progresso? Faltam instrumentos técnicos, científicos, avanços industriais, capacidades agrícolas, ciência médica, escola, consciência dos perigos planetários? O que é que trava a paz e a melhoria generalizada e possível da vida da maior parte? E quem são eles, a quem este estado de coisas aproveita? São como os outros mas são pessoas de sucesso, são o que os outros, os de baixo, querem ser? O sistema é o processo das ascensões dos famintos e remediados, dos provincianos parvenus agora na capital sempre sonhada, dos proletários e pequeno-burgueses, ontem, burgueses hoje, que viram costas às próprias origens e são ferozmente contra os seus tornando-se cães de fila do capital, seus ideólogos e estipendiados? O mundo é dos novos ricos e dos novos ricos a caminho, saídos ontem lá das berças e com fome ancestral de poder?
O sistema do espectáculo e do consumo destrói a democracia e isso importa? Mas a democracia não é hoje o seu simulacro? Quantos votam, em nome de quê, quantos se abstêm e quantos estão fora, exteriores a tudo? Quantos votos reais vale um presidente? E um primeiro-ministro? E que maioria é essa que é muito menos de metade da totalidade dos inscritos? O desinteresse não amputa a democracia? E vem de onde? Não virá da qualidade vulgar dos políticos? Quem luta por ideais e não por interesses apenas imediatos?
A escola faz mais licenciados, muitos licenciados com desemprego garantido, e isso é aceite? A escola produz menos gente competente na língua e a pensar criticamente e isso nada nos diz? A verdade é estatística? A sociologia de bolso, que se diz não ser senso comum, quem serve e a quem serve? É ciência, é crónica de costumes, paleio sociologuês, é o quê e as suas estatísticas e inquéritos apressados o que legitimam? E os economistas vulgares pensam em quê, na saúde dos bancos, no seu salário, na economia de todos, como dizem? E porque raio têm uma total falta de imaginação e cultura aqueles que eles escolhem para opinar televisivamente? São escolhidos a dedo por quem? Só escolhem aqueles que eles sabem que vão dizer o que está previsto e entra na cadeia do que é homogeneizar opinião? O mundo virtual, o poder de criar a virtualidade das coisas e de dar a ler os fenómenos numa dada forma, com receitas que se dominam por se dominarem os poderes de as prescrever no espaço público global – selva virtualizada - e de criar os acontecimentos segundo leis conhecidas, não existe? É tudo o resultado do que é aleatório por desgoverno criado pelo confronto entre mega-poderes globais na chamada aldeia global? Mas qual aldeia global? Quantas aldeias e interiores e populações fora da foto de serviço planetária falsamente integrada existem e não fazem parte? Quantos estarão fora dos mercados e das estatísticas?
E quando se fala de abismo o que o evitará, ou a teoria é a da selecção natural, como entre predadores? Para que serve tanta lei e tanta capacidade repressiva se as máfias se instalam em conúbio com o legisladores e os repressores no poder? E que significa o mau gosto massivo chegar lá acima e erigir a vulgaridade em omnipresença? Quem queimou na Mondadori – era dono recene da editora - as obras completas de Goldoni?
Mas qual Estado de Direito? Qual Constituição? Se a lei prescreve para uns e se aplica a outros em que lei habitamos? Se uns países fazem dos outros seus reféns por via dos juros e dos jogos financeiros que Europa será essa? Se a cultura e a arte são secundarizadas e os paraísos fiscais intocados que decisões se praticam? Se os bancos e os banqueiros vivem a crise sempre por cima quando ao mesmo tempo se resgatam bancos por eles mal governados com dinheiros públicos, quem se condena ao suicídio por não ter salário que chegue?
Os suicídios aumentam na Grécia porquê? O desemprego em Espanha chega quase aos 25% e aí se eterniza porquê? Quem é socialista na verdade e social democrata na verdade? E que comunismo é esse que se satisfaz na retórica e nas formas previstas de protesto ordeiro? E que esquerdas são estas que não fazem uma esquerda alternativa?
E que mal fizeram os países do Sul? São povos de mandriões? Mas isso é critério, sociologia fast food, vulgaridade/ponto de vista? E qual? De onde surge o fascismo? A opinião vulgar o que trama?
O que é facto é que quando as coisas podem ser melhores porque são melhores as respostas técnicas, a consciência cultural e a possibilidade do convívio entre identidades maiores e diferentes, o saber científico prático, tudo recua – quando a outra sociedade surge possível por estarem criadas todas as condições, eis que a tragédia da dívida tudo faz regredir. À beira da possibilidade se erguem de novo as muralhas da inevitabilidade do pior, andamos para trás não dois passos mas décadas. O mundo melhor está aí e foge. Mas que outros responsáveis podem ser os que criaram este estado de coisas que não sejam os poderes reais, de facto, os poderes financeiros especulativos e os seus aliados eleitos nos simulacros de democracia que os servem e que dos seus poderes se servem para si mesmos e para a clique? Quem dirige o mundo são países e povos, eleitos e eleitores, ou a mesma casta apátrida serventuária e cega pelos interesses privados, os mesmos em todo o lado? Não são os poderes, os poderes banqueiros e os mercados financeiros? E não há conúbio entre bancos e governos, não transitam uns de uns cargos para outros como se nada fosse? E isso não se chama sistema? Chegará o ponto da sua implosão ou haverá uma explosão?
O que é facto é que a violência sistémica é criminosa e mais criminosa que os terrorismos e é da mesma natureza cega. As medidas que se tomam para resolver as questões não são escrutinadas pelos europeus, os europeus não existem, são uma flor de estilo – o poder real age assumidamente com servilismo seguindo os ditames dos mercados que nenhuma legitimidade têm para exercer um poder superior ao poder dos eleitos. O colonialismo é parte das relações entre países do mesmo suposto espaço democrático. Vivemos sob protecção e oprimidos. A resistência cultural é essencial, não somos iguais nem somos idênticos, falamos outra língua e temos um outro ritmo. As nossas misturas têm 900 anos quase, somos um pequeno rectângulo espalhado na geografia de muitos mundos. Nenhuma democracia banqueira e financista, simulada, apenas virtual, nos engolirá. Seremos no futuro porventura outros, mas seremos os mesmos se a língua sobreviver. Os alemães, esses, deviam pensar muito bem na sua história recente. A falta de memória não será um mal do Sul. Nunca aceitaremos transformar a nossa casa num campo de concentração. O que é lamentável é que haja esta disponibilidade lacaia a que assistimos e que é capaz de relativizar tudo, mesmo a morte evidente e visível engendrada pela medida e pela falta da medida – claro que o visível é o visível que se invisibiliza ou pelo choque violento que cega, ou pela repetição que torna vulgar e satura, faz esquecer, ou pela substituição incessante pelo novo escândalo que ocupa o espaço do caso protagonista sempre fresco e imediato.
Se o cinema chega a zero filmes, não será bem assim, diz o governante em porta voz de si mesmo relativizando as coisas, estamos a resolver, se o teatro se extingue, não é bem assim, estamos a resolver, diz o porta voz de si mesmo relativizando as coisas, se o desemprego é grave, não será bem assim, diz o relativizador de serviço, se as estradas perdem metade dos utentes, não será bem assim, somos economistas e pragmáticos, infalíveis, se a realidade sangra não será bem assim, é a realidade que se engana.
Mas quem é esta gente que mente com esta facilidade?
A arte de governar é a de melhor mentir, repetidamente?
fernando mora ramos
O modo como o humano confina com o inumano parece fazer do inumano – o humano apenas variável estatística, indústria light da morte - uma regra aceite, erige o pragmatismo assente na inevitabilidade das relações de poder constituídas, entre colossos, em solução repetidamente mesmista quando é claro que se necessita de uma alteração radical da estrutura das relações de poder. Oh que saudades do muro e da coexistência pacífica dirão alguns.
O que é que não se compara e que o relativismo financista condena à morte em vida, máquina assassina indirecta e directa? O desemprego, a diminuição dos rendimentos do trabalho com a acumulação de lucros de meia dúzia? Sobre o que é que nem se reflecte e é território tabu, quando se tomam as mesmas medidas que nada resolvem e apenas contribuem para uma maior concentração da riqueza nas mãos de uma minoria cada vez menor? A riqueza – o poder - cada vez mais concentrada num número menor de criaturas e a pobreza que alastra não são as duas faces de uma mesma moeda? Não se comparam as casas vazias devolvidas aos bancos, as rendas inacessíveis, com as mansões e os condomínios de luxo proliferando com a crise? A paz nas choupanas e guerra aos palácios não está na ordem do dia? O resgate dos bancos feito contra o resgate da desgraça não se compara? A fome e os banquetes não têm ligação óbvia? O salário de uns e o desemprego de outros não é o resultado de um sistema de vasos comunicantes? Querem fazer de nós parvos ou a realidade é imodificável? Mas que prova a história? Não será a queda de uns e a subida de outros, sucessivamente? Onde estão as monarquias hoje a não ser na pura convenção, na fidalguia arruinada e no turismo nobilitado de habitação, a rainha a viver das entradas no palácio e ela própria postal a sépia, memória patrimonial, turismo?
Foi sempre assim? Foi, mas quem fala? Não foi e mesmo que tivesse sido, haverá necessidade de que continue a ser? É isso a modernidade? Isso mais as autoestradas? O tal progresso? Faltam instrumentos técnicos, científicos, avanços industriais, capacidades agrícolas, ciência médica, escola, consciência dos perigos planetários? O que é que trava a paz e a melhoria generalizada e possível da vida da maior parte? E quem são eles, a quem este estado de coisas aproveita? São como os outros mas são pessoas de sucesso, são o que os outros, os de baixo, querem ser? O sistema é o processo das ascensões dos famintos e remediados, dos provincianos parvenus agora na capital sempre sonhada, dos proletários e pequeno-burgueses, ontem, burgueses hoje, que viram costas às próprias origens e são ferozmente contra os seus tornando-se cães de fila do capital, seus ideólogos e estipendiados? O mundo é dos novos ricos e dos novos ricos a caminho, saídos ontem lá das berças e com fome ancestral de poder?
O sistema do espectáculo e do consumo destrói a democracia e isso importa? Mas a democracia não é hoje o seu simulacro? Quantos votam, em nome de quê, quantos se abstêm e quantos estão fora, exteriores a tudo? Quantos votos reais vale um presidente? E um primeiro-ministro? E que maioria é essa que é muito menos de metade da totalidade dos inscritos? O desinteresse não amputa a democracia? E vem de onde? Não virá da qualidade vulgar dos políticos? Quem luta por ideais e não por interesses apenas imediatos?
A escola faz mais licenciados, muitos licenciados com desemprego garantido, e isso é aceite? A escola produz menos gente competente na língua e a pensar criticamente e isso nada nos diz? A verdade é estatística? A sociologia de bolso, que se diz não ser senso comum, quem serve e a quem serve? É ciência, é crónica de costumes, paleio sociologuês, é o quê e as suas estatísticas e inquéritos apressados o que legitimam? E os economistas vulgares pensam em quê, na saúde dos bancos, no seu salário, na economia de todos, como dizem? E porque raio têm uma total falta de imaginação e cultura aqueles que eles escolhem para opinar televisivamente? São escolhidos a dedo por quem? Só escolhem aqueles que eles sabem que vão dizer o que está previsto e entra na cadeia do que é homogeneizar opinião? O mundo virtual, o poder de criar a virtualidade das coisas e de dar a ler os fenómenos numa dada forma, com receitas que se dominam por se dominarem os poderes de as prescrever no espaço público global – selva virtualizada - e de criar os acontecimentos segundo leis conhecidas, não existe? É tudo o resultado do que é aleatório por desgoverno criado pelo confronto entre mega-poderes globais na chamada aldeia global? Mas qual aldeia global? Quantas aldeias e interiores e populações fora da foto de serviço planetária falsamente integrada existem e não fazem parte? Quantos estarão fora dos mercados e das estatísticas?
E quando se fala de abismo o que o evitará, ou a teoria é a da selecção natural, como entre predadores? Para que serve tanta lei e tanta capacidade repressiva se as máfias se instalam em conúbio com o legisladores e os repressores no poder? E que significa o mau gosto massivo chegar lá acima e erigir a vulgaridade em omnipresença? Quem queimou na Mondadori – era dono recene da editora - as obras completas de Goldoni?
Mas qual Estado de Direito? Qual Constituição? Se a lei prescreve para uns e se aplica a outros em que lei habitamos? Se uns países fazem dos outros seus reféns por via dos juros e dos jogos financeiros que Europa será essa? Se a cultura e a arte são secundarizadas e os paraísos fiscais intocados que decisões se praticam? Se os bancos e os banqueiros vivem a crise sempre por cima quando ao mesmo tempo se resgatam bancos por eles mal governados com dinheiros públicos, quem se condena ao suicídio por não ter salário que chegue?
Os suicídios aumentam na Grécia porquê? O desemprego em Espanha chega quase aos 25% e aí se eterniza porquê? Quem é socialista na verdade e social democrata na verdade? E que comunismo é esse que se satisfaz na retórica e nas formas previstas de protesto ordeiro? E que esquerdas são estas que não fazem uma esquerda alternativa?
E que mal fizeram os países do Sul? São povos de mandriões? Mas isso é critério, sociologia fast food, vulgaridade/ponto de vista? E qual? De onde surge o fascismo? A opinião vulgar o que trama?
O que é facto é que quando as coisas podem ser melhores porque são melhores as respostas técnicas, a consciência cultural e a possibilidade do convívio entre identidades maiores e diferentes, o saber científico prático, tudo recua – quando a outra sociedade surge possível por estarem criadas todas as condições, eis que a tragédia da dívida tudo faz regredir. À beira da possibilidade se erguem de novo as muralhas da inevitabilidade do pior, andamos para trás não dois passos mas décadas. O mundo melhor está aí e foge. Mas que outros responsáveis podem ser os que criaram este estado de coisas que não sejam os poderes reais, de facto, os poderes financeiros especulativos e os seus aliados eleitos nos simulacros de democracia que os servem e que dos seus poderes se servem para si mesmos e para a clique? Quem dirige o mundo são países e povos, eleitos e eleitores, ou a mesma casta apátrida serventuária e cega pelos interesses privados, os mesmos em todo o lado? Não são os poderes, os poderes banqueiros e os mercados financeiros? E não há conúbio entre bancos e governos, não transitam uns de uns cargos para outros como se nada fosse? E isso não se chama sistema? Chegará o ponto da sua implosão ou haverá uma explosão?
O que é facto é que a violência sistémica é criminosa e mais criminosa que os terrorismos e é da mesma natureza cega. As medidas que se tomam para resolver as questões não são escrutinadas pelos europeus, os europeus não existem, são uma flor de estilo – o poder real age assumidamente com servilismo seguindo os ditames dos mercados que nenhuma legitimidade têm para exercer um poder superior ao poder dos eleitos. O colonialismo é parte das relações entre países do mesmo suposto espaço democrático. Vivemos sob protecção e oprimidos. A resistência cultural é essencial, não somos iguais nem somos idênticos, falamos outra língua e temos um outro ritmo. As nossas misturas têm 900 anos quase, somos um pequeno rectângulo espalhado na geografia de muitos mundos. Nenhuma democracia banqueira e financista, simulada, apenas virtual, nos engolirá. Seremos no futuro porventura outros, mas seremos os mesmos se a língua sobreviver. Os alemães, esses, deviam pensar muito bem na sua história recente. A falta de memória não será um mal do Sul. Nunca aceitaremos transformar a nossa casa num campo de concentração. O que é lamentável é que haja esta disponibilidade lacaia a que assistimos e que é capaz de relativizar tudo, mesmo a morte evidente e visível engendrada pela medida e pela falta da medida – claro que o visível é o visível que se invisibiliza ou pelo choque violento que cega, ou pela repetição que torna vulgar e satura, faz esquecer, ou pela substituição incessante pelo novo escândalo que ocupa o espaço do caso protagonista sempre fresco e imediato.
Se o cinema chega a zero filmes, não será bem assim, diz o governante em porta voz de si mesmo relativizando as coisas, estamos a resolver, se o teatro se extingue, não é bem assim, estamos a resolver, diz o porta voz de si mesmo relativizando as coisas, se o desemprego é grave, não será bem assim, diz o relativizador de serviço, se as estradas perdem metade dos utentes, não será bem assim, somos economistas e pragmáticos, infalíveis, se a realidade sangra não será bem assim, é a realidade que se engana.
Mas quem é esta gente que mente com esta facilidade?
A arte de governar é a de melhor mentir, repetidamente?
fernando mora ramos
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Castelhanos e dívida
A sandice entrou na normalidade com estes protagonistas governativos. O disparate, de tão assíduo, faz passar a ideia de que é também um efeito da crise e porventura um modo de a combater – à força de disparatar talvez a dívida se espante, qual pássaro e se deslocalize para paragens de crescimento. Esta do Aguiar Branco dizer que a dívida, derrotá-la, é como em tempos fizemos expulsando os castelhanos para reaver a independência, ganha o campeonato dos disparates ao Álvaro e ao Passos, concorrentes diferentes, mas ambos bons na asneira. Do Álvaro são regulares os pontapés na língua e o optimismo ultra, a roçar a asnice, raciocínio silogístico e esquemático, do Passos os excessos paternalistas de tutor do indígena pátrio não vêm melhoras: dois estilos, ou melhor, a falta de um estilo de estadista, nos dois.
Que estará Aguiar Branco a pensar? Será que o imaginário de um Ministro da Defesa mete sempre castelhanos por razão patriótica? Basta ser da defesa para sonhar com Castela? O advogado brindar-nos-ia com a mesma metáfora plena de profundo significado histórico?
Não tarda estaremos nos jornais de referência, os vários, a seguir a implementação da táctica do quadrado na resolução do passivo sob forma altamente explicada por diversos inteligentíssimos líderes de opinião encartados. A dívida levantar-se-á, dirão, do alto da sua arrogância especulativa, convocará as suas tropas mercenárias armadas de altas taxas de juros, napalm mais eficaz que a bomba de neutrões, e Aguiar Branco, na pele do Condestável e na mesma Aljubarrota da humilhação a Castela, lanças em riste, esperará pela carga com a certeza de que a mesma formação, revivificada e benzida neste 2012 fatídico, derrotará os apátridas sem rosto que nos querem reduzir à nova escravatura, a da mão-de-obra gratuita e do pé descalço servil diante do turista sempre amado.
Eles lançam na linha da frente as agências de rating, capazes de ataques sofisticados em rede e convergências várias e nós atiramos-lhes com o que vier à mão, azeite de Moura a ferver e couve galega, aliada de boa hora, o que os fará recuar e procurar segunda investida depois de reagrupada a cavalaria. Nessa hora, a coragem dos nossos peões redobrará pela mola da fé e com ajuda da Virgem eles não terão nenhuma hipótese. Alguns, como rezará a História, borrar-se-ão na cueca de couro com H grande, outros babar-se-ão de medo e amuarão, afrouxando então os cavalos numa verdadeira deserecção solidária com aquele que na sela lhe finca as esporas na ilharga, outros ainda terão a armadura toda enferrujada pelas sequelas lacrimais do medo. Aos que fugidos sem saber para onde a padeira apanhar, já se sabe o que fará, com a vantagem de que hoje o forno é eléctrico e para toneladas de farinha: dará para enfornar mais do que um exército inteiro de cobardes, logística e tecnologia no sítio da pá da padeira, já no Museu da Pátria. Não terão hipótese, a grelha será o destino merecido.
Em sintonia com Aguiar Branco, nova encarnação de Dom Nuno, todos nós vamos colocar nas janelas das nossas casas bordados com o famosos quadrado da táctica, de modo a inspirar também aqueles que com Branco estarão lá onde o quadrado de formar. Não faltarão voluntários para pôr as forças da Dívida no seu lugar aplicando-lhes de seguida o devido correctivo, isto é, obrigando-os a meter as altas taxas de juro pelos altos cus acima. Viva Portugal!
fernando mora ramos – português de gema
Que estará Aguiar Branco a pensar? Será que o imaginário de um Ministro da Defesa mete sempre castelhanos por razão patriótica? Basta ser da defesa para sonhar com Castela? O advogado brindar-nos-ia com a mesma metáfora plena de profundo significado histórico?
Não tarda estaremos nos jornais de referência, os vários, a seguir a implementação da táctica do quadrado na resolução do passivo sob forma altamente explicada por diversos inteligentíssimos líderes de opinião encartados. A dívida levantar-se-á, dirão, do alto da sua arrogância especulativa, convocará as suas tropas mercenárias armadas de altas taxas de juros, napalm mais eficaz que a bomba de neutrões, e Aguiar Branco, na pele do Condestável e na mesma Aljubarrota da humilhação a Castela, lanças em riste, esperará pela carga com a certeza de que a mesma formação, revivificada e benzida neste 2012 fatídico, derrotará os apátridas sem rosto que nos querem reduzir à nova escravatura, a da mão-de-obra gratuita e do pé descalço servil diante do turista sempre amado.
Eles lançam na linha da frente as agências de rating, capazes de ataques sofisticados em rede e convergências várias e nós atiramos-lhes com o que vier à mão, azeite de Moura a ferver e couve galega, aliada de boa hora, o que os fará recuar e procurar segunda investida depois de reagrupada a cavalaria. Nessa hora, a coragem dos nossos peões redobrará pela mola da fé e com ajuda da Virgem eles não terão nenhuma hipótese. Alguns, como rezará a História, borrar-se-ão na cueca de couro com H grande, outros babar-se-ão de medo e amuarão, afrouxando então os cavalos numa verdadeira deserecção solidária com aquele que na sela lhe finca as esporas na ilharga, outros ainda terão a armadura toda enferrujada pelas sequelas lacrimais do medo. Aos que fugidos sem saber para onde a padeira apanhar, já se sabe o que fará, com a vantagem de que hoje o forno é eléctrico e para toneladas de farinha: dará para enfornar mais do que um exército inteiro de cobardes, logística e tecnologia no sítio da pá da padeira, já no Museu da Pátria. Não terão hipótese, a grelha será o destino merecido.
Em sintonia com Aguiar Branco, nova encarnação de Dom Nuno, todos nós vamos colocar nas janelas das nossas casas bordados com o famosos quadrado da táctica, de modo a inspirar também aqueles que com Branco estarão lá onde o quadrado de formar. Não faltarão voluntários para pôr as forças da Dívida no seu lugar aplicando-lhes de seguida o devido correctivo, isto é, obrigando-os a meter as altas taxas de juro pelos altos cus acima. Viva Portugal!
fernando mora ramos – português de gema
domingo, 27 de maio de 2012
A realidade e o real
Realidade é quando notas a diferença radical entre duas coisas idênticas, paladares diferentes, real é a rota dos impossíveis, o modo como as paredes se erguem intransponíveis e experimentas a dimensão da impotência, o modo como o desejo potencia e é mola, faz chegar até ali e morre na praia e na realidade não adormece, volta e é sempre em pé. Quase morto renasce para o mesmo ciclo e tu voltas lá para de novo caíres, de pé provavelmente mesmo quando te cedem as pernas ou a alma. Intranquilo és agido, agindo contra os profetas do sistema, estipendiados pois claro. A realidade é móvel e nela sujas as mãos do mesmo modo que as lavas, tem a forma da plasticina e moldas as coisas com o suor não do rosto mas das mãos e é aí justamente que o real mostra a face da estrutura e condiciona, estruturas de condicionamento, de formatação diríamos hoje: mede o teu tamanho, põe-te de joelhos dizem-te, ordenam-te, é a voz do grande costume, tem atrás o peso de toda a memória da história da humanidade, memória ordenadora da subalternidade dos muitos, memória do que constitui a voz do dono, não a visão, a constatação em força pragmática, o status quo, mudar para o pior do mesmo: a regra.
A realidade, apesar de tudo, tu podes pesá-la numa balança antiga, ter a forma de um quilo de pêssegos ainda verdes, sorrir por vezes, como pode ser uma teia de aranha no lugar desprevenido: quem alguma vez suporia que ali pudesse ser uma rota para moscas? Mas é porque em boa verdade não somos omniscientes, ele sim, o real, é omnisciente e movimenta-se como as placas tectónicas. Não temos idade possível para lhe fazer nenhum tipo de companhia, assim como não poderemos viajar ao umbigo do planeta numa sonda apta a resistir ao magma profundo, quem sequer sonha essas incandescências de galáctica dimensão, subterrâneas, nelas tendo entrado?
Na realidade, por exemplo, quantos exemplos de exemplos serão possíveis, dela, realidade, para exemplificar o real? Tantos quanto as espécies de realidade que não são vítimas de nenhuma extinção ou sobrevivam na memória prospectiva como vida, respiração acordada e aberta. A essas poderemos multiplicá-las pela diversidade de borboletas que continuam a inundar a primavera, extinta mas bem preenchida de rosas minúsculas e grandes, de cardos e alcatruzes, de silêncios prolongados na ponta mais extrema da insónia e de manhãs vibrantes de entrosamento cardíaco como cosmos. Queimarmo-nos e até podemos pôr gelo na entorse ou na ruptura muscular, coisa tão complicada quase como a monogamia, pelo menos para as almas voadoras, isso é um exemplo das versões que a realidade, pele do real, vai compondo neste cumprir um trajecto que é a vida – em auto da alma recente, esta dimensão do trajecto apareceu-me com uma evidência que jamais sentira como que numa fusão entre possibilidade biográfica e opacidade do tempo histórico dentro dele.
O buraco no passeio não apitou e a urgência do aviso não preveniu a queda porque nas pedras não há ainda alarmes, não têm dono, e não apitam como apitam os carros a voz esganiçada do proprietário à passagem de uma ninfa, por exemplo, que lance mais vento que o previsível sobre o capô – esta palavra sabe a francês demais para ser só brasileira, ela importou o ô, e o português pode no brasileiro, mantendo-se íntimo na expressão, sambar o que o alegre. Aquele sensor está habituado a não notar, esse que não evita que tropeces, ao contrário do outro que é polícia da tua proximidade ao carro do dono e ao dono, pois, sim porque há coisas assim como que uma gota de água a fazer com que o copo perca a paciência e se faça em pedaços infinitos, mas isso nada tem a ver nem com sensores nem com politicamente correctos, nem com propriedade, nem com formas de trato elegantes e outras concordâncias de sujeito com o predicado de terceiros, social nada comum visão do comum livre.
Quem consegue contar de uma só vez, num único olhar panorâmico para ser claro, com as limitações também da frontalidade abrangente – nunca veremos bem as costas - as migalhas do vidro espalhadas por um chão transparente depois de uma cólera justa? O real é essa transparência que não termina e onde na realidade não sabemos onde fazer parar a possibilidade interminável de dirigir o olhar à velocidade da luz que houver, pois ver na penumbra ou ver na imensidão da luz solar a sua intensidade, são quase opostos e no entanto as mesmas filiações, pois quem a sombra tece é quem a noite traz e quem o dia amanhece, nem deus nem Deus nem deuses nem leis nem a natureza nem o homem, nem as formas preexistentes nem as criadas, nem as mãos que as mãos moldaram mãos manuais, feitas à mão pelo labor da mão – e pela mãe - no trânsito entre a primeira sobrevivência rupestre e esta sobrevivência virtual, milénios entretanto, Cristo e antes dele outras cruzes e núbios, na realidade tão lacustre esta realidade como a outra, basta observar como os gestos dos humanos em situações de salivar ideológico nas montras de hoje, sonhando estatutos e posando-os em imagem de si mesmos à la minute – onde vai o minuto - faz renascer aquilo que no macaco era o pior dos vícios, a mania de se ver aos espelho e de se bronzear enquanto dá murros na peitaça para sacudir adversários ou chuta bolas para contar pelos dedos em tempo infinito o que clama como vitória. Os dedos da masturbação são os mesmos da aritmética e os mesmos da mão dada no Domingo, os mesmos de apontar o dedo a alguém, do mesmo modo e na mesma natureza que faz com que se nasça perto de onde diariamente nos libertamos do que transitoriamente somos e fede, escatologia ou escatolobiologia ou o que quiserem.
Real é o modo como o fundo do mar resistiu ao genoma do caranguejo por vir, absolutamente inexplicável na sua constante marcha à ré, marcha atrás organizada pelos olhos cegos da carapaça traseira, na realidade absolutamente disponível para a água que ferve com a ponta de sal bem medida: deitar a quantidade de sal necessário numa dada porção de por exemplo sopa é arte manual, masturbação sublimada na couve ou no agrião, colocar o quanto baste de alho e acertar entretanto com o ponto onde o vinho se possa dizer que tem um polegar de altura no copo é artesanato.
Arte é outra coisa: é do domínio da impossibilidade que se deseja, mistura da vontade com impossibilidade, e feita ali, onde de repente se erguem as vozes interiores que ordenam o real falando de dentro – fluindo por entre químicas, nada mais físico que a ficção - como um rio interior cujo destino é a fronteira da consciência, conspurcada de multiplicidades o que baste, sujo de mãos sujas que ajuda à mestria do real pelos limites da experiência, currículo vejam bem, a realidade, em suma, dentro de ti e fora de ti, nas olheiras e no cabelo a quebrar, na mola do desejo também e na solidão aplicada da concentração ao deambular das frases na geografia do texto, porto de destino e de partida, porto e exterior, o teu lá fora.
Fazendo-a falar, insinuando enérgica a forma do desenho a vir, eis a ficção – a quem poderás solicitar uma palavra de luz senão aos que escreves porque os tens na memória e pulsar cardíaco? E como estão longe mas apesar disso voltam a falar porque dizem coisas diferentes daquelas que na última vez retiveste do mesmo fragmento, pois retemos fragmentos e saltamos entre eles, pulsares de sentido que se desvanesce e vivifica de novo.
Como poderás tu dizer que é assim ou assado quando todas as formas da ficção são o resultado do desequilíbrio entre as narrativas que se impõem vindas do nada interior que alimentas – e como fazê-lo sem esse vazio cuja estratégia de parto estará na tua arte da recorrência, voltar ao pousio, descanso que prevê semeadura? E como aquilo que é construído no sentido da estruturação vazado num tempo e num destino mais imediato toca a outros porque exactamente tem uma dada estrutura, mais aberta, mais livre, montagem, ordenação sem cronologia mas lógica?
Quem serão vocês que sentem a leitura como uma excitação, um perigo, pois mata, mata de excesso de vício e obsessão, desliga do comum, desnormaliza, para ligar a outra realidade, essa onírica, real subterrâneo, fluxo, tutano, medula e nervo, química do desejo e sílaba fazendo-se palavra e frase? Receio e compreensão, excitação e acelerações, intensidade e pausa, paragem, suspensão, eis o corpo no corpo da ficção identificável, e resultado menos imediato de ler da ficção, projectado no tempo porque interior e portanto não medido, tempo da psique e não da psicologia, nada brique-à-braque institucional ou tragicómico, quase química a organizar-se em órgão vitais, química interior. A ficção é de um órgão vital a secreção limpa plena das sujidades produzida na realidade - sabendo entretanto que isso, esse gesto de ficcionar comprometido com a vida, está para além de todas as contingências, pois quem te impõe que vivas dentro de ti a tua própria viagem contra o que possas sonhar, mesmo que não explicites e digas, pois tens a liberdade de estar calado ou de dizer, como queiras? Podes mesmo gritar, podendo o grito sinalizar-te como alvo de insídia e mesmo de ajuste de contas, inveja pacóvia sempre a apequenar os que fomos navegando em outras paragens, a nossa sorte identitária misturada, mesmo que memória, pois é o estrume do que possa vir e da propulsão necessária para partir de novo, paragens físicas ou culturais, outras cartografias.
Claro aí é o facto de não poderes de facto fazer essa viagem se ela se fizer claramente contra a estruturação dominante – quantas são as paredes do real, quantas têm videovigilância e microfone denunciante, quantas delas são justamente a solidez do que é antagónico estatuído paz podre e cimentado na longa ou média duração? E de onde sai esta nossa realidade, da idade dos partidos, da República, de onde vem ela e o que será a última data significativa senão uma data precária?
Mesmo que se exerça por vezes através de alegorias e parábolas, simbólicas enigmáticas e desvios, comparações produtivas, coisa que por vezes pode passar na malha apertada dos que governam a realidade, esses cães de fila que são a realidade mesquinha do exercício da propriedade ao serviço do real, como passar a palavra para além do que ela em ti possa viajar para viajar nos outros e para que viajes neles e a viajem se faça comum, talvez mesmo país?
Mais estranho que tudo isto é pensar que real e real são a mesma palavra monárquica e que realeza e a realidade, nada têm de comum.
fernando mora ramos
A realidade, apesar de tudo, tu podes pesá-la numa balança antiga, ter a forma de um quilo de pêssegos ainda verdes, sorrir por vezes, como pode ser uma teia de aranha no lugar desprevenido: quem alguma vez suporia que ali pudesse ser uma rota para moscas? Mas é porque em boa verdade não somos omniscientes, ele sim, o real, é omnisciente e movimenta-se como as placas tectónicas. Não temos idade possível para lhe fazer nenhum tipo de companhia, assim como não poderemos viajar ao umbigo do planeta numa sonda apta a resistir ao magma profundo, quem sequer sonha essas incandescências de galáctica dimensão, subterrâneas, nelas tendo entrado?
Na realidade, por exemplo, quantos exemplos de exemplos serão possíveis, dela, realidade, para exemplificar o real? Tantos quanto as espécies de realidade que não são vítimas de nenhuma extinção ou sobrevivam na memória prospectiva como vida, respiração acordada e aberta. A essas poderemos multiplicá-las pela diversidade de borboletas que continuam a inundar a primavera, extinta mas bem preenchida de rosas minúsculas e grandes, de cardos e alcatruzes, de silêncios prolongados na ponta mais extrema da insónia e de manhãs vibrantes de entrosamento cardíaco como cosmos. Queimarmo-nos e até podemos pôr gelo na entorse ou na ruptura muscular, coisa tão complicada quase como a monogamia, pelo menos para as almas voadoras, isso é um exemplo das versões que a realidade, pele do real, vai compondo neste cumprir um trajecto que é a vida – em auto da alma recente, esta dimensão do trajecto apareceu-me com uma evidência que jamais sentira como que numa fusão entre possibilidade biográfica e opacidade do tempo histórico dentro dele.
O buraco no passeio não apitou e a urgência do aviso não preveniu a queda porque nas pedras não há ainda alarmes, não têm dono, e não apitam como apitam os carros a voz esganiçada do proprietário à passagem de uma ninfa, por exemplo, que lance mais vento que o previsível sobre o capô – esta palavra sabe a francês demais para ser só brasileira, ela importou o ô, e o português pode no brasileiro, mantendo-se íntimo na expressão, sambar o que o alegre. Aquele sensor está habituado a não notar, esse que não evita que tropeces, ao contrário do outro que é polícia da tua proximidade ao carro do dono e ao dono, pois, sim porque há coisas assim como que uma gota de água a fazer com que o copo perca a paciência e se faça em pedaços infinitos, mas isso nada tem a ver nem com sensores nem com politicamente correctos, nem com propriedade, nem com formas de trato elegantes e outras concordâncias de sujeito com o predicado de terceiros, social nada comum visão do comum livre.
Quem consegue contar de uma só vez, num único olhar panorâmico para ser claro, com as limitações também da frontalidade abrangente – nunca veremos bem as costas - as migalhas do vidro espalhadas por um chão transparente depois de uma cólera justa? O real é essa transparência que não termina e onde na realidade não sabemos onde fazer parar a possibilidade interminável de dirigir o olhar à velocidade da luz que houver, pois ver na penumbra ou ver na imensidão da luz solar a sua intensidade, são quase opostos e no entanto as mesmas filiações, pois quem a sombra tece é quem a noite traz e quem o dia amanhece, nem deus nem Deus nem deuses nem leis nem a natureza nem o homem, nem as formas preexistentes nem as criadas, nem as mãos que as mãos moldaram mãos manuais, feitas à mão pelo labor da mão – e pela mãe - no trânsito entre a primeira sobrevivência rupestre e esta sobrevivência virtual, milénios entretanto, Cristo e antes dele outras cruzes e núbios, na realidade tão lacustre esta realidade como a outra, basta observar como os gestos dos humanos em situações de salivar ideológico nas montras de hoje, sonhando estatutos e posando-os em imagem de si mesmos à la minute – onde vai o minuto - faz renascer aquilo que no macaco era o pior dos vícios, a mania de se ver aos espelho e de se bronzear enquanto dá murros na peitaça para sacudir adversários ou chuta bolas para contar pelos dedos em tempo infinito o que clama como vitória. Os dedos da masturbação são os mesmos da aritmética e os mesmos da mão dada no Domingo, os mesmos de apontar o dedo a alguém, do mesmo modo e na mesma natureza que faz com que se nasça perto de onde diariamente nos libertamos do que transitoriamente somos e fede, escatologia ou escatolobiologia ou o que quiserem.
Real é o modo como o fundo do mar resistiu ao genoma do caranguejo por vir, absolutamente inexplicável na sua constante marcha à ré, marcha atrás organizada pelos olhos cegos da carapaça traseira, na realidade absolutamente disponível para a água que ferve com a ponta de sal bem medida: deitar a quantidade de sal necessário numa dada porção de por exemplo sopa é arte manual, masturbação sublimada na couve ou no agrião, colocar o quanto baste de alho e acertar entretanto com o ponto onde o vinho se possa dizer que tem um polegar de altura no copo é artesanato.
Arte é outra coisa: é do domínio da impossibilidade que se deseja, mistura da vontade com impossibilidade, e feita ali, onde de repente se erguem as vozes interiores que ordenam o real falando de dentro – fluindo por entre químicas, nada mais físico que a ficção - como um rio interior cujo destino é a fronteira da consciência, conspurcada de multiplicidades o que baste, sujo de mãos sujas que ajuda à mestria do real pelos limites da experiência, currículo vejam bem, a realidade, em suma, dentro de ti e fora de ti, nas olheiras e no cabelo a quebrar, na mola do desejo também e na solidão aplicada da concentração ao deambular das frases na geografia do texto, porto de destino e de partida, porto e exterior, o teu lá fora.
Fazendo-a falar, insinuando enérgica a forma do desenho a vir, eis a ficção – a quem poderás solicitar uma palavra de luz senão aos que escreves porque os tens na memória e pulsar cardíaco? E como estão longe mas apesar disso voltam a falar porque dizem coisas diferentes daquelas que na última vez retiveste do mesmo fragmento, pois retemos fragmentos e saltamos entre eles, pulsares de sentido que se desvanesce e vivifica de novo.
Como poderás tu dizer que é assim ou assado quando todas as formas da ficção são o resultado do desequilíbrio entre as narrativas que se impõem vindas do nada interior que alimentas – e como fazê-lo sem esse vazio cuja estratégia de parto estará na tua arte da recorrência, voltar ao pousio, descanso que prevê semeadura? E como aquilo que é construído no sentido da estruturação vazado num tempo e num destino mais imediato toca a outros porque exactamente tem uma dada estrutura, mais aberta, mais livre, montagem, ordenação sem cronologia mas lógica?
Quem serão vocês que sentem a leitura como uma excitação, um perigo, pois mata, mata de excesso de vício e obsessão, desliga do comum, desnormaliza, para ligar a outra realidade, essa onírica, real subterrâneo, fluxo, tutano, medula e nervo, química do desejo e sílaba fazendo-se palavra e frase? Receio e compreensão, excitação e acelerações, intensidade e pausa, paragem, suspensão, eis o corpo no corpo da ficção identificável, e resultado menos imediato de ler da ficção, projectado no tempo porque interior e portanto não medido, tempo da psique e não da psicologia, nada brique-à-braque institucional ou tragicómico, quase química a organizar-se em órgão vitais, química interior. A ficção é de um órgão vital a secreção limpa plena das sujidades produzida na realidade - sabendo entretanto que isso, esse gesto de ficcionar comprometido com a vida, está para além de todas as contingências, pois quem te impõe que vivas dentro de ti a tua própria viagem contra o que possas sonhar, mesmo que não explicites e digas, pois tens a liberdade de estar calado ou de dizer, como queiras? Podes mesmo gritar, podendo o grito sinalizar-te como alvo de insídia e mesmo de ajuste de contas, inveja pacóvia sempre a apequenar os que fomos navegando em outras paragens, a nossa sorte identitária misturada, mesmo que memória, pois é o estrume do que possa vir e da propulsão necessária para partir de novo, paragens físicas ou culturais, outras cartografias.
Claro aí é o facto de não poderes de facto fazer essa viagem se ela se fizer claramente contra a estruturação dominante – quantas são as paredes do real, quantas têm videovigilância e microfone denunciante, quantas delas são justamente a solidez do que é antagónico estatuído paz podre e cimentado na longa ou média duração? E de onde sai esta nossa realidade, da idade dos partidos, da República, de onde vem ela e o que será a última data significativa senão uma data precária?
Mesmo que se exerça por vezes através de alegorias e parábolas, simbólicas enigmáticas e desvios, comparações produtivas, coisa que por vezes pode passar na malha apertada dos que governam a realidade, esses cães de fila que são a realidade mesquinha do exercício da propriedade ao serviço do real, como passar a palavra para além do que ela em ti possa viajar para viajar nos outros e para que viajes neles e a viajem se faça comum, talvez mesmo país?
Mais estranho que tudo isto é pensar que real e real são a mesma palavra monárquica e que realeza e a realidade, nada têm de comum.
fernando mora ramos
sábado, 26 de maio de 2012
O músico e a mãe
Saltar com a mãe pela mão, ele, aos sessenta, músico e desempregado e ela com 90 e alzheimer desde há três, quatro anos, é algo que ninguém pode nem imaginar e é aterrador, um soco na passividade induzida que nos tem presos nos mecanismos da presença fictícia, porque afirma uma opção pela morte, que, no caso, como ele disse, o músico António Perris, na mensagem que deixou, se assume em desespero de causa e solução derradeira. António escreveu uma última mensagem em que dizia não estar em condições de alimentar a mãe nem a si mesmo, disse-o assim com esta crueza depois de um grito por auxílio postado na net que terminava com uma pergunta dirigida a todos nós sobre o sofrimento de ambos: alguém conhece uma solução? À senhora tinham feito cortes na pensão e de 600 euros passara a ter 340, nenhum lar a aceitava, esboçava-se também uma esquizofrenia, ele estava sem emprego há dois anos. As portas fecharam-se todas. Como podermos explicar uma inevitabilidade assim produzida, construída pela indiferença de tudo o que os cercava, dos vizinhos de prédio às leis selvagens impostas do exterior que vêm suspender no seio dos gregos – e entre nós - a possibilidade de um vida digna, imperativo coincidente com o que poderemos chamar de mínimos democráticos e vitais? A democracia e a vida têm rotas que não coincidem? Onde está o erro clamoroso, o crime inscrito no corpo do sistema? A democracia não é liberdade selvagem imposta pelos mercados, é antes de tudo a dignidade das condições de vida de todos, antes do mais a alimentação, o que aliás a natureza resolve aos que nascem e depois, pelo que vemos, a sociedade nega a muitos. Neste caso a liberdade de pedir auxílio, a dimensão pública do gesto, caiu no saco roto da forma desta “democracia” que não se dota de respostas instituídas para situações de urgência e limites, nenhum mecanismo público reagiu, nenhuma forma de solidariedade cívica agiu, nenhuma fraternidade se exerceu, nenhum internacionalismo foi visto. A degradação dos vínculos comunitários na realidade das relações está a atingir graus de indiferença absurdos, a criar mesmo, pelo desnorte sádico de muitas ideologias que se julgavam extintas, isto é, “residualizadas”, o desejo de uma espécie de catástrofe que venha repor um novo equilíbrio demográfico e uma nova partilha dos depauperados recursos naturais da terra – não julguem que não é assim, ele há paraísos artificiais a surgir nos mais diversos condomínios privados.
O que explica este empurrão que os proprietários e gestores da crise, navegando à vista a instabilidade jogada de roleta dependente dos humores de casino da bolsa e dos lucros especulativos do dia, frescos ainda, deram a este duo infeliz?
O que não é imaginável como possível aconteceu, na Grécia, país que na invenção da tragédia clássica fez entrar o mundo dos mitos na racionalidade de uma idade dos poderes que esboçava os primeiros passos esta violência autoinfligida e gesto dirigido a todos, aconteceu há dias - berço da democracia, diz-se, muitas vezes sem a consciência de que entre a invenção da igualdade, as leis que a afirmam e uma política de equilíbrio entre as diferenças vitais de estruturação de um todo social (homogeneidade de heterogeneidades) e de acesso dos que não têm ao comum que a possibilite, à igualdade, é obra de séculos, pois nada mais claro que os poderes fácticos construírem e praticarem assiduamente, em nome da democracia desde que é “a referência” da política planetária, a destruição da democracia e da possibilidade do seu aprofundamento como uma constante histórica, levando a sociedade desigual aos extremos do que possa ser, mostrando-se com isso que mesmo sob as imposições éticas dos consensos para inglês ver – o pagode - vertidos nas leis, a lei nada vale para quem em nome dela exerce a força contra o que prescreve e diz, com a contribuição servil de todos os que nessas áreas têm emprego rendível e exercem funções sistémicas e para-sistémicas.
A tragédia de Perris e da mãe nem sequer teve o impacto da morte de Dimitris Christoulas na Praça Syntagma, foi um adeus de desespero, um voo terrivelmente angustiado de um quinto andar para o chão. E a austeridade vai continuar a fazer as suas vítimas diárias. Dentro de uns anos o balanço e os julgamentos e os tribunais vão decretar que foi crime, que os seus autores mereceriam a prisão, que há crimes que só o tempo torna visíveis e tudo terá passado – o modo como os crimes prescrevem é sinal de como injustiça é a actualidade e a justiça, uma mera projecção no tempo, um idealismo prospectivo. Chocante é voltar a entrar-me nos ouvidos, sem o querer, a frase que disse o Primeiro-ministro sobre o desemprego. Já nada nos pode consolar. Sair desta situação implica de facto algo novo, algo que por dentro do sistema não é possível.
Repousem em paz António e mãe do António, os Perris, suponho. Trezentos euros é o nome da vossa viagem e o bolso atento, mesquinho e cúmplice de homicídio do Estado. Vejamos o que vem daí, da Grécia, num tempo muito próximo e com um sentido de futuro humanizado.
fernando mora ramos
O que explica este empurrão que os proprietários e gestores da crise, navegando à vista a instabilidade jogada de roleta dependente dos humores de casino da bolsa e dos lucros especulativos do dia, frescos ainda, deram a este duo infeliz?
O que não é imaginável como possível aconteceu, na Grécia, país que na invenção da tragédia clássica fez entrar o mundo dos mitos na racionalidade de uma idade dos poderes que esboçava os primeiros passos esta violência autoinfligida e gesto dirigido a todos, aconteceu há dias - berço da democracia, diz-se, muitas vezes sem a consciência de que entre a invenção da igualdade, as leis que a afirmam e uma política de equilíbrio entre as diferenças vitais de estruturação de um todo social (homogeneidade de heterogeneidades) e de acesso dos que não têm ao comum que a possibilite, à igualdade, é obra de séculos, pois nada mais claro que os poderes fácticos construírem e praticarem assiduamente, em nome da democracia desde que é “a referência” da política planetária, a destruição da democracia e da possibilidade do seu aprofundamento como uma constante histórica, levando a sociedade desigual aos extremos do que possa ser, mostrando-se com isso que mesmo sob as imposições éticas dos consensos para inglês ver – o pagode - vertidos nas leis, a lei nada vale para quem em nome dela exerce a força contra o que prescreve e diz, com a contribuição servil de todos os que nessas áreas têm emprego rendível e exercem funções sistémicas e para-sistémicas.
A tragédia de Perris e da mãe nem sequer teve o impacto da morte de Dimitris Christoulas na Praça Syntagma, foi um adeus de desespero, um voo terrivelmente angustiado de um quinto andar para o chão. E a austeridade vai continuar a fazer as suas vítimas diárias. Dentro de uns anos o balanço e os julgamentos e os tribunais vão decretar que foi crime, que os seus autores mereceriam a prisão, que há crimes que só o tempo torna visíveis e tudo terá passado – o modo como os crimes prescrevem é sinal de como injustiça é a actualidade e a justiça, uma mera projecção no tempo, um idealismo prospectivo. Chocante é voltar a entrar-me nos ouvidos, sem o querer, a frase que disse o Primeiro-ministro sobre o desemprego. Já nada nos pode consolar. Sair desta situação implica de facto algo novo, algo que por dentro do sistema não é possível.
Repousem em paz António e mãe do António, os Perris, suponho. Trezentos euros é o nome da vossa viagem e o bolso atento, mesquinho e cúmplice de homicídio do Estado. Vejamos o que vem daí, da Grécia, num tempo muito próximo e com um sentido de futuro humanizado.
fernando mora ramos
terça-feira, 22 de maio de 2012
Secretas e secretos de
Este é um país de intrigas, quem as tece tem o poder de mexer cordelinhos e ao fazê-lo, de entreter o pagode, uns de umas famílias com pedigree justiceiro e outros de outras com vocação negocista – do que se trata sempre é de negócios, não duvidem e nisso até as secretas se metem e se o país fosse invadido por elefantes marinhos nem dariam por isso, nem preventivamente nem na hora certa de acordar. Cada intriga, notícia e enredo, rende rios de tinta, declarações apaixonadas, comentários chocarreiros, altos momentos de política interna assumidos pelos protagonistas marcados para a cena diária e depois tudo desemboca na anedota que geneticamente nos tem presos e é enquanto forma breve – é questão de fôlego e reverso da nossa capacidade filosófica – e forma síntese, a sua revelação e resolução final, o que fica para a história das lembranças e faz colunas de humor, ou sobes e desces, em notícias picantes para enchimento. Na realidade a revelação do que é relevante no meio de um oceano de graças ambiente, a maior parte delas sem vitalidade nem humor irónico, perde-se na multiplicação dessas partes, até á náusea, que justamente tornam o enchido saboroso e mais para o estômago que para a cabeça. Será o facto de termos os tais novecentos anos de história e de portanto tudo o que se expressa é a senilidade do corpo, a cabeça, a dizê-lo? As idades dos países têm uma relação óbvia com as suas vitalidades e identidade expressiva? O que é verdade é que este governo cheio de modernos, menos modernos que os do último, esses muito mais eco-renováveis, é um conjunto de anciães – a visão é trauliteira, sob os modos corteses do senhor Primeiro ministro e absolutista – cujo defeito principal, para senhores de velhas políticas financistas, é serem absolutamente inexperientes. A quantidade de disparates governativos e de omissões ultrapassa na listagem possível e na estatística da asneira, aquilo que todos os governos até este cometeram de mau a péssimo. O que é verdade é que estes anos todos de democracia não nos libertaram da dependência, nem da iliteracia, nem do atraso e somos de facto, pelas estatísticas, um país de pessoas tristes e insatisfeitas – é uma estatística estranha, esta da tristeza, mas ela está aí e creio que foi feita pela certeza do que o telefone permite e alcança. Deve ser qualquer coisa do género: pergunta o da estatística a quem atende: sente-se triste (falo da empresa tal e etc.) e responde a pessoa: estou desempregado. E obviamente que a resposta dá para dois itens, o do emprego e o da tristeza, este último por extrapolação. E vamos portanto tendo este retrato que fazem a colar-se-nos à pele irremediavelmente, pois a estatística derrota qualquer argumento e principalmente qualquer visão de futuro, é definitiva e tem uso imediato, justifica medidas. Esta da tristeza justificará por certo um próximo investimento em máquinas de cócega e riso de médio e curto prazo que sirvam pragmaticamente para animar a malta e consequentemente melhorar as metas produtivas e o crescimento, esse excluído que Hollande põe agora no mapa e que Merkel nem quer ver.
Mas nós de facto pasmamos: o ministro Relvas ameaça uma jornalista por causa de umas mensagens para o telemóvel – perigosos SMS’S – que entretanto apareceram onde não deviam dizendo que revela coisas do seu perfil e vida privada? Será possível? Se isto se passasse entre certas pessoas e só entre elas, de uma mesma família por exemplo, era como o outro, é o tamanho das coisas e das pessoas. Mas não, é assunto nacional, e porventura, internacional – na verdade, a produção de escândalos ao serviço do anedotário é coisa mais nossa e só raramente uma anedota nossa faz rir uma criatura de humor britânico ou de visão chinesa. Não quero cometer injustiças e portanto devo dizer que sou apreciador do humor alentejano e foi no Alentejo que vi, pela primeira vez, um elefante voar. Mas neste caso estamos noutro espaço mental e numa tradição filosófica popular que é e foi surrealista muito antes do surrealismo. É uma questão de outra percepção do tempo e do espaço e consequentemente da vida, da nossa relevância irrelevante.
É na realidade extraordinário que tenhamos esta queda para nos perdermos no insignificante e fazer dele a montanha. Disto tudo nem a saída de Relvas acontecerá, nem a política se refará qualificada, ela que tanta necessidade tem de reabilitar-se aos olhos de todos, pois como sabemos nem a justiça nem a política existem. E continuaremos entusiasticamente a esbracejar no meio das falsas evidências como se travássemos guerras finais. De alecrim e manjerona claro.
fernando mora ramos
fernando mora ramos
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Europa e europa
A confirmação de uma agência internacional de que o Serviço Nacional de Saúde está pior só vem confirmar com atraso o que sentimos na pele desde que se assumiu a regressão como meta – o tal apertar no cinto que para uns é acabar com a gordura e para outros será mesmo ficar sem cinto e de calças na mão.
Em boa verdade que Europa é esta europa que se submete por inteiro às leis do mercado selvagem e ademocrático e que está disposta a menos democracia para manter os lucros da especulação obscena de uns poucos como parte harmónica do sistema? Mas o sistema é a economia, o financismo, contra a democracia e os serviços públicos, o único garante real do acesso da maioria da população à saúde, à educação, à cultura, à casa e portanto a mínimos estruturantes e vitais de alegria?
O crédito, quando surge, não surge com objectivos especulativos mas sim com objectivos de desenvolvimento económico e de superação da indigência social, como podemos constatar numa carta de Angelo Beolco, dramaturgo italiano do renascimento, em que ele fala de um dinheiro que serve os camponeses, que os ajuda na sua pequena economia a prosperar. A palavra usura aparece nesse contexto com um sentido positivo, ao contrário do que já não acontece no século XVIII quando em Goldoni falam os Rústicos – “prefiro guardar as moedinhas a gastá-las vendo o novo mundo pela luneta” diz um rústico – a propósito já da concentração da propriedade através da técnica homicida do juro incomportável.
O que de facto não é de estranhar é que há de modo cada vez mais claro e com prova histórica duas europas: a Europa e a europa. A primeira gerou-se na democracia e dentro desta alcançou o bem estar que a verdadeira social democracia concretizou nos anos setenta/oitenta – porque será que um partido liberal se apelida de social democrata? A segunda tem atrás de si todo um cortejo de experiências ditatoriais, desde o franquismo, ao fascismo mussoliniano e português para expressar os exemplos notórios juntando-se-lhe o nazismo, trauma da história universal que veio fazer com que a humanidade do homem daí para frente fosse questionada de modo novo. Que humanidade é capaz de construir um mundo em que o paradigma é a superioridade racial de uns e a escravização, tortura e liquidação massiva de outros?
Onde estamos nós agora? Na Europa ou na europa? Estamos na realidade a caminho da europa. Não só a desqualificação generalizada da vida da população de parte da Europa é decidida pela força de uns europeus contra outros, mas também a democracia é suspensa pela mesma força de impor tutelas governativas por via não democrática a países que o aceitaram, tanto no caso italiano como no grego.
Mas o sinal mais claro desta regressão democrática a caminho de uma Europa que é de novo perigosamente europa é mesmo o modo como se instalou um sentimento generalizado anti gregos nessa europa dos ricos que, tendo as suas diferenças relativamente à ideologia nazi contra os judeus e à campanha globalizada contra o islamismo – à pala de perseguir o extremo comem todos – é da mesma forma o princípio da exclusão de um povo do convívio com os outros numa dita união. E porque razões? Por razões de contabilidade. É de facto mais importante pagar a taxa ilegítima – qual a sua base legal? - do juro incomportável ao dono do crédito que salvaguardar a democracia dentro de uma lógica Europeia, a da solidariedade – somos um mesmo espaço comum, um mesmo país feiro de países diferentes e por isso mesmo somos uma união, uma união de diferenças, nada mais rico que isso mesmo – como poderemos nós daqui para a frente falar de Homero e Sócrates como raiz comum da Europa se excluímos os seus irmãos contemporâneos? E como falar de berço da democracia formal?
Na realidade, este tipo de divisão só se supera numa união, mas não numa união monetária, apenas numa união solidária. E que o que é que pode construir esta senão a valorização comum de princípios democráticos reconhecidos consensualmente e identificados como património, como justamente aquilo que é a razão do que é comum, da verdadeira união?
A visita de Hollande à Senhora M. lança grandes expectativas e como Hollande diz com prazer estamos de olhos abertos na França – uns, outros estão enraivecidos. Mas subsiste uma dúvida clara que é aquela que o vocabulário transporta e que se lê na palavra crescimento como a palavra alternativa à palavra austeridade. A via do futuro não estará certamente entalada entre estes dois vocábulos e portanto aquilo que os teóricos de serviço dizem não passam de formas de servidão intelectual. Há mais vida que a vida que entre elas pode ser gerada e essa vida só pode ser a do aprofundamento da democracia e o fim da centralidade do financismo na economia e desta como O TEMA ÚNICO. Vamos falar de estar vivos e viver?
fernando mora ramos
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