sábado, 11 de janeiro de 2014

Definitivamente as Bahamas

Na convenção teatral burguesa um diálogo deve ser bem urdido, carpinteirado – que palavra –, correr atrás da lógica sequencial, da silogística e da argumentação contrapontada, da complementaridade simétrica. Uma coisa segue-se a outra. Portanto: nem pensamento no sentido da sua potencialidade, em bruto, fora de sítio, emergindo, nem desrazão, surdez psicológica, menos ainda incapacidade expressiva, vulgaridade a explorar no que a realidade oferece, matérias-primas de escritas. Nesta tradição, o diálogo bem feito da peça bem-feita, sobrepõe-se às virtualidades do real, mais inventivas que qualquer regra ou bom gosto e fruto de condicionamento ideológico – ideias mais comportamentos – nos territórios em que agem os sujeitos reais nas situações que nos interessam reconstruir artisticamente, diagnosticar, tendo exercitado dramaturgicamente a compreensão da sua complexidade mas sem a intenção de dar lições a quem quer que seja, antes de suscitar interrogações, novos olhares, fazer luz sobre penumbras e escuros de um modo que só o teatro é capaz de fazer, em assembleia e com prazer. 
Revelar o escondido nos mundos próximos, expor a inumanidade feita rotina é um objectivo do teatro desde o pós-guerra – na sociedade do hipercontrolo massivo já a realidade é outra, o poder omnipresente do consumismo engendra as monstruosidades que o quotidiano deita para fora como o rio que transborda e expulsa do leito o que no seu devir imparável, arrasta e sucumbe à força – o meu reino por umas sapatilhas de marca diz um adolescente, a minha vida por um corte de cabelo na moda, o meu futuro é um carro, a minha cozinha um céu, os duzentos canais televisivos o próprio Olimpo. 
Crimp diz que escreve sobre o que as pessoas falam, estrutura as coisas que ouve, observa e desenvolve experiências rítmicas e microestruturas dialogais que são recorrentes – os diálogos tropeçam no mesmo e vão avançando por movimentos concêntricos até que se fecha um círculo maior que os contém. Em Definitivamente as Bahamas o casal volta ao mesmo momento enquistado de uma crispação dialogal, repete um assunto que é disputa competitiva, por exemplo discutir se o filho esteve nas Bahamas ou nas Canárias – a memória esvai-se – e avança no tempo parando sobre um vazio que os toma para, no fim da peça, regressar ao princípio: a descoberta novo-rica do valor do silêncio na casa nova – a antiga era sob uma rota de aviões. Um silêncio que para eles pode ter estrelas de qualidade hoteleira, mas que ameaça ser tumular à medida que nada de novo são capazes de dizer um ao outro. Um ao outro? Mas quem são e o que age neles senão um exterior que está muito para além do que se nomeiam?
As formas dialogadas de Crimp não significam troca individual, fluxo afectuoso, subjectivação, mas essa crueldade das relações humanas que desvenda subtilmente, nas entrelinhas da mente, no lapso de memória, no erro involuntário, na linguagem e que revelam uma espécie de fascismo quotidiano instalado nas relações e exercido por identidades cristalizadas. Não esqueçamos que o sistema é, no fundo e em plena fabricada efervescência do consumo, o mesmo que engendrou o nazi-fascismo. 
Não são diálogos, o que escreve, mas surdez recíproca, incomunicabilidade egocêntrica, agressão, tendência homicida – em muitos casais, como na peça, o homicídio “involuntário” de longa duração é prática diária, a crueldade, um estado de alma recorrente.
Crimp diz que as pessoas reais dizem coisas incrivelmente cruéis. Em Definitivamente as Bahamas existem um polo sul e um polo norte que se atraem, Milly e Frank. Atraem-se dos extremos em que estão, de uma distância inultrapassável mas irmanada. A caracterização polar também é de Crimp. 
Milly e Frank são um casal nos sessentas, ficcionado por um autor de trinta. Crimp diz que lembram os pais mas não são os pais. Assim é a ficção, um desvio, um afastamento do que é para lá se regressar pensando que os espectadores têm um papel a desempenhar: o contrário do consumo, uma leitura, não um entretém, prazer real e não passatempo – o prazer é uma experiência interior, o charadismo entretenedor um fora em que as pessoas projectam uma sociabilidade que é ritual, fingimento de comunidade, amontoado de pessoas. 
E há a jovem Maryka, holandesa em Erasmus, o assunto do casal, do filho Mike e da nora Irene, que laqueou as trompas depois de um aborto pouco claro quanto às razões – Maryka tirou aquela família da sua rotina: o seu inglês é estranho, a racha na saia um exagero de estilo, a sua informalidade sem regra, o seu sex appeal parece motivar um estremecimento na família, presa num voyeurismo algo perverso e sem assunto vital, futuro – um neto - necessitando de estímulo exterior tal como quem está num coma de passividade conformada e confortável. Para Myke, Maryka é uma excitação, um caso fácil, um motivo de exacerbação do seu sexismo mal vivido. Irene parece longe do desejo, virada para a casa e os azulejos. Mesmo os pais de Myke projectam um suposto par Mike/Maryka e Irene fotografa-os numa proximidade promissora. 
Milly é uma máquina falante e Frank um complemento, a sua resistência passiva encontra nas ausências mentais uma forma de fuga. Quando Milly está incontinente verbal ele está em nenhures, entorpecido por um vazio que o toma – nela o vazio é gritante, presença vocal, torrente. Em outras ocasiões ele tem qualquer coisa de Milly também, uma maldade contra o mundo unifica-os. São polos opostos mas o conservadorismo de ambos solda-se em torno de uma moderação defensiva de Frank, machista em território específico – dos “homens” em geral – e de um extremismo militantemente britânico de Milly, capaz de um racismo de apartheid. 
O desejo dela é uma piscina, o dele, um fim-de-semana de visita aos bolbos na Holanda. Tanto a piscina como o fim-de-semana são em conta: ela arranja um homem barato para escavar um buraco e o fim-de-semana dele está em promoção. Há aqui uma divergência profunda... De resto efabulam a sua vida através de terceiros, o filho, a nora, Mike e Joan, a amiga de Milly. São corpos desistentes, enfiados nos sofás. Ir à cozinha é uma épica. O reaccionarismo de ambos é um imobilismo, enterrados nos sofás falam, falam, ela fala, fala, pelos cotovelos, interminavelmente. 
Para Milly tudo o que é exterior, estrangeiro, é bárbaro, só no seu universo e na sua regra doméstica as coisas são elevadas – para Mike as coisas são também assim, Maryka, a jovem holandesa sabe certamente Afrikans – qualquer holandês o sabe - e é uma potencial mulher de montra nas Walledjes, na realidade os que são outros são estereotipados por ele. Frank e Milly são reféns da sua pobreza cultural, parecidos com tudo o que nos vem cercando com a progressão da hegemonia americanizada dos modos de vida. Como em Menos emergências, extraordinária peça curta, o lá fora é a barbárie, o mundo civilizado são eles fechados nos seus medíocres castelinhos domésticos a olhar de longe a realidade e de perto a água parada de uma piscina. Agamben define esta pequena burguesia universal como a ausência total de identidade, essa capacidade de vestir constantemente a camisola de um outro qualquer cultural que vá preenchendo o seu fechamento chauvinista e globalizado – ser americano é ser globalmente senhor do mundo naquele sentido em que se tem o comando do planeta na mão como quem tem um comando de televisão.


fernando mora ramos

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Tangerineira

Aquela tangerineira fui eu que a pus com o Henrique. Num buraco fundo, para firmar bem a pouca raiz que tinha. O corpo quase todo dentro e ao relento – é o destino das árvores, pulmão frágil do mundo - as poucas ramagens e as duas folhas de uma árvore bebé. Foi em cima do Natal e queria selar algo entre nós, família alargada nos dois, que durasse um tempo significativo e fosse uma espécie de anteparo de tragédias por vir – eu queria uma fortaleza pactuada, um alicerce sagrado pelo que nos foi dado pelo mistério do ser aí das coisas, a tangerineira, a folha, a tangerina, o humor olfactivo da sua casca e o agridoce do sumo, aquele tipo de coisa que no som dizemos timbre e é único, dali, tu associa-lo não ao que é idêntico mas ao sítio, aquele canto do quintal e estarmos ali, nós, aqueles que somos e a nossa infância.
Onde raio encontrar, à beira do Tejo, nas adjacências da Lisboa da praia de Pedrouços – quem sabe ao que isso ecoa de velas e especiarias, que murmúrios salinos vêm na brisa – uma tangerineira com futuro no corpo adquirível? Em miúdos sonhávamos com a prenhez das grainhas. E quantas as atirávamos como deuses para a terra disponível esperando desenvolvimentos súbitos sempre demorados, espantávamo-nos do nada visível e zarpávamos dali para montar a tenda noutra paragem: a pressa da criança não é embalada pelo tempo que o tempo se dá para germinar o que seja. Os milagres na infância querem-se automáticos, rápidos como uma correria, um salto a pique do alto do guarda-fato, a janela partida numa aposta.
Onde raio encontrar uma tangerineira? A nespereira do vizinho do lado já se tinha ido mas deixou caroço do nosso lado. A nespereira, como o limoeiro, eram do início, do tempo das portas sempre abertas, a casa atravessada por corpos em flecha. Árvores primordiais, nem as víamos, éramos com elas o quintal, também nós sementes. Por isso queria a tangerineira, marca de novo início, não havia nenhuma por ali e tinha tamanho adequado, não exigia escada, a poda seria um corpo a corpo tranquilo e a copa emparelharia com as das outras, mesmo com a ameixoeira do lado, o luxo do lugar. Árvores eram portanto quatro. A ameixoeira fora milagre, um surgimento sem plano, nada a explica, ainda hoje, já só tronco, meio e robusto como seria o de um carvalho decepado na terceira idade. A ameixoeira crescera para o lado, anca capaz de fundações, ancora. E tinha uma coisa única, resinava cores impossíveis de translúcidas, falas de deuses, néctares e ambrósias – em boa verdade o quintal tornou-se na memória um olimpo de terrenidades.
Nódoas de nêspera são terríveis, nem do corpo saem. A roupa estava portanto tatuada desse sumo que escorria na vertigem da sede de tudo. Com a tangerineira seria diferente, menos definitiva a sua marca e mais perene o cheiro da casca nos dedos – bem, e sempre estamos trinta anos depois. Não é uma mania, é destino, a paixão dos aromas do quintal. Nunca mais nos larga, como o olhar pousado da mãe quando vem naquele toque do voo da ave matreira, cansaço nos ombros, as mãos sem parar. São as origens, lá para o país das matas de castanheiros e da cal. Pôr-nos a mão em cima sempre. Esgotada a mão ficava esse olhar calado e aumentado que o tempo foi cavando como uma ruga imparável.
Ele, o Henrique, era a mãe. Era completamente a mãe, mais que o mais velho e que o segundo, obsessão em linha recta – o mais velho também. Em tudo ela tentou, no lápis da escola, nas cópias à força de pachorra insistente, nos ditados, na tabuada – como com o pai dela - no topo das árvores, o mesmo sobrevoo. Afinal o que é essencial? O banho da razão? Também ela teria sido sempre, sentindo-se, alguém no topo das árvores. Onde estás tu rapariga, dizia o pai plantado na soleira imaginada. Ninguém a via. Como ele, nas alturas. Há pessoas que não desistem de ser pássaros. Fazem-se portanto às árvores como outros às cadeiras, esse enraizamento na imobilidade que nos vai ganhando para o lado de lá que sempre espreita, primeiro sob o impacto da voz dos donos, dos grandes condicionadores, depois pela voz orgânica, a da humidade essencial de tudo.
E saímos no meu Clio a caminho da tangerineira possível num Domingo, creio, pelo menos para efeito ficcional era, é, um domingo. De Domingo para domingo veio o acordo ortográfico – nada a ver com tangerineira, mas surgiu a meio dos dedos e teclado, a letra ergueu-se no ecrã maiúscula, minúscula, apetecida.
E fomos para a periferia imediata, Linda-a-Velha, Alfragide, por-ali-fora, estrada do parque de campismo – tudo isso está mudado, agora uma espécie de vazadouro tentado de fluxo contínuo de trânsito que é de um contínuo mais, ou menos, parado. As vistas são as do engarrafamento light desde que abriu o nó da Buraca, a traseira do da frente sempre ali e o tipo do lado a fingir que não me vê ou a não me ver, nem a si mesmo, interiorizando as próprias mudanças, a reduzida na mente, metida uma terceira, mete a terceira, para, arranca, paraaaarranca, as carantonhas ensimesmadas de raiva.
No tempo das estradas elas eram paisagens, bermas, campos de vinha e a prise – o que o meu pai gostava de dizer prise, este carro tem uma boa prise, a caminho de Inhambane. As árvores eram outras, o palmeiral e as mangas, já quase no Tofo. O nosso quintal é alargado, nele cabe um mundo tão largo quanto os confins do Save, a picada abrupta e as gazelas. E a bananeira que o Henrique plantou no quintal da frente – o quintal da frente não seria para fruta, era hall, mas o Rico era sem régua e esquadro, desde miúdo as voltas trocadas, tortas direitas, eram dele, muitos nascemos do avesso – a bananeira da frente era, ao fim-e-ao-cabo, a sua República, a sua paisagem vadia ali enfiada. Coqueiro mesmo era mesmo o da Palmeira, antes da curva da Macia e antes dos ananases da picada suave – quarenta quilómetros de areal - a cinco quinhentas, cinco, como as quinas, que bandeira aquela. [A última bicuda que grelhámos foi por ali, no Bilene, com o Camilo e o Leite.] E como esquecer entre as estradas vindas do fundo da tralha, pedaços de tempo e fotos, o caminho das árvores fechadas, ali à Portagem, Marvão por cima, e Escusa no sopé, tudo a desaguar numas águas ainda límpidas: milagre do atraso diria o homem do progresso fazendo contas. 
Entrámos então numa grande superfície, numa mega superfície, numa híper superfície. Uma selva de objectos e gente, multidão. Tudo ao molhe e fé na bugiganga, olhos esbugalhados de ausência e desejo de qualquer coisa a um mesmo gestempo, cada um perdido em si nas coisas. Pelos corredores fora demos com a secção naturezas vivas depois de atravessar a das naturezas mortas, corpos de frangos embalados em vácuo em fila indiana deitados sob projectores de luz higiénica e pinturas de fruta avermelhada em quadris de madeira com mais febres de cor que quando tu coras de prazeres e sabe-se como ficas.
E videiras, trincadeira preta, alicante bouchet, touriga nacional, franca, tinto cão – confesso o prazer que tenho de dizer tinto cão – tinta roriz e trincadeiras – as castas magníficas do Douro – verdelho, malvasia, baga, arinto, sirah, síria e outras e logo a seguir, romãzeiras, macieiras, ameixoeiras, diospireiros, marmeleiros, e numa das últimas esquinas em finalmente cá estamos, os citrinos. Qual a melhor tangerineira? Dá para perguntar ao empregado? Está escrito? Ou ela será de dizer eu sou a tal? Não. Nada. Do empregado de tangerinas nem um arremedo de opinião, para ele tangerina, clementina, tangera, o mesmo quê, fruta, tudo fruta. Se falássemos de pera rocha ainda vai que não era e fosse capaz, era do Bombarral. [Aparte: havia um tipo do tempo do serviço público, do telejornal novaiorquino, que dizia sempre pera e não para nem pera. Vou pera Pernambuco soa mesmo estranho. Dizia aquilo como se a pera de pera tivesse perdido o norte, ou o sumo, o que acontece à fruta calibrada, é miss fruta mas não suma.]
E pegámos na tangerineira com o ar mais saudável, as duas folhas únicas ainda verdes, sem que a palidez das luzes interiores as tivesse adoentado. De regresso a casa não há história, viemos num foguete, o objectivo clama por velocidade, operacionalidade. Começámos a cavar a cova da tangerineira como quem tem desejos de elefante. Num primeiro tempo a cova engoliu a árvore, o buraco maior que o porte arbóreo à mão. Mas lá chegámos à medida certa – tudo em uma medida – e lá a plantámos com doses de vitaminas e terra empurrada, compactada. Água, muita no baptismo, do Tejo, que a árvore queria-se irmanada com a bananeira do quintal da frente, de moçambiques fora.
Hoje quando vejo, ano a ano, a fruta renascer tenho ali o Henrique. É o meu natal, o nosso ano novo. Além disso aprendemos a tratar os cachos da bananeira: passam na dispensa dois meses, envoltos em folhas do Público e papel de alumínio. As bananas ficam gourmet com tanto cuidado narrativo. E são as dele.
fernando mora ramos

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Há o queixo


Há o queixo-biqueira
E o queixo-quadrado
Na o’neilliana eira
No país malfadado
Do queixo-biqueira
Se espera a barata
Que em pose foleira
Traga na asa a prata
Que no prego renda
A preguiça e a venda
Que chico-esperto é
Forma de ser e polé
Do queixo-quadrado
Nada virá inesperado
É mesmo alternância
O mesmo do mesmo
Entre fome e ganância
É o preço o remesmo
Antes biqueira do chico
Que o nobre alpiste
Do quadrado em riste
Ora mostre lá o bico


fernando mora ramos

A fábula do golpista, do coelho-oco e do cavaco-duro

Coelho Oco – Oh, Portas do poder, fechais-vos assim para mim. E a cenourinha, onde vou buscá-la que não quero cultivá-la. Conhecem algum coelho horticultor? Estive no empresariado mas apenas para projectar tocas em torno de aeródromos, tocas acústicas para atenuar o impacto sonoro-ecológico das avionetas incendiárias, uma coisa de formação para surdos aviadores toupeiras com asas, com dinheiros do quadro comunitário agrículo-aviador – temos Mar, mas temos céu que o espelha, o nosso céu é também o céu da nossa ilimitada fronteira marítima – os fogos do futuro estão no futuro e o futuro é o Mar cá dentro.
Portas Falso – Eu quando fecho a porta fecho a porta, sou inexorável, irrevogávelirrepetível, irra… cionacio, na…cio…nal… algo, filho de algo.
Cavaco Duro – Temos chuva na eira e chuva no nabal, algo está mal, nada proverbial. Vou à Wikipédia. Eh pá, aqui diz: água a mais não dá saúde nem faz crescer. Vou consultar o papel, o que será crescer? Se fosse crescimento era fácil, mas crescer!
Coelho Oco  Oh Portas, abre lá. O que tens tu contra a Albuquerque? Querias uma Sacadura Cabral ou outro animal?
Portas Falso – Eu quando fecho a minha porta, a minha porta, a porta do meu táxi-existencialfecho-a para sempreA minha porta fechada é uma porta ética.
Cavaco Duro – Pé de cabra: instrumento que parte portas – não é necessário no caso das portas falsas pois estas reabrem sozinhas, por si mesmas, são animadas pela flexibilização ética ilimitada, o que nada tem com a flexibilidade laboral que é uma ginástica para pobres.(monologado murmúrioGrande salada.
Gazua: instrumento que abre qualquer portas e que qualquer portas conhece. É esguio e penetra silenciosamente, parece-se com uma lingueta espalmada. Eh pá, que complicação. Pé-de-cabra ou gazua diz-me tu, Oh Madame do Leste? Ainda me boliqueimo.
Coelho Oco – Abre lá, senão acabou-se para ti e para mim e sais dos 10 mais, ficas pequenino estatístico, assim mindinho numérico, tás a topar. E eu não sou horticultor, não tenho cenouras minhas, nem nada assim. Cenoura minha gentil que te partiste abre lá…
Portas Falso – (abrindo a porta e espreitando o coelho que está de joelhos virado para os Jerónimos) A porta está fechada.
Cavaco Duro – Vou ver a lei. A lei vai safar-me.
Portas falso – (fadado pelo destino, agora na moldura da porta, em corpo inteiro para a História – reparem no H) A portas está fechada, sou um plural majestático, sou IRREVOGÁVEL.



fernando mora ramos

terça-feira, 9 de julho de 2013

Portugal

Portugal é o Entroncamento, um entroncamento constante cujos caminhos se (des)encontram e repartem em direcções não conexas. Ir para a frente é afinal recuar, regredir, o futuro. Uma encruzilhada de caminhos aleatórios, inesperados não pela surpresa absoluta da sua desconexão geométrica no corpo cobaia do país, mas pela emergência incontrolável dos factos políticos que a mediocridade, nos lugares de decisão determinante, inventa: becos em perspectiva, de cada vez que se faz uma pausa maior, resultado aliás da capacidade de autobloqueio, de estagnar – quem é o chico-esperto mais que um medíocre à procura de safar-se num desenrascanço pleno de génio? Para este tipo de gente, politiqueiros e comentadores que fazem de seus duplos de cobertura no preenchimento de um templo pleno mediático – para cada político um comentador, jornalista a caminho da política ou ex-político em travessia de regresso à política ou mesmo estrela televisiva – o pior é poderem parar para, como dizem, pensar – pensa-se o quê num país sem opinião pública mas com um coro interminável de franco-atiradores atirando frases inteligentíssimas para o vazio que as acolhe, parte deles comprados e outros completamente entregues a um suposto estilo fastio/fashion, arvorado com um suposto toque de classe no rosto entediado? O ideal seria estarem, uns e outros, sempre a viajar, longe de nós, num eterno voo diplomático, por exemplo.
Caminhamos a caminho de um nada cuja bandeira maior interior, a do desejo, é sempre gastronómica – num livro antigo sobre feitios identitários vocacionais um estrangeiro iluminado estranhava que comer se acompanhasse, entre nós, de falar de comer e grunhidos de prazer, mas que melhor haverá?
De facto, depois do entroncamento, um túnel, interminável narrativa e ao fundo desse túnel, sempre inacabado, um colorido amanhã, pleno dos avisos de que mesmo assim teremos de continuar austeros, regurgitados cantos de mestrados e mestrandos de Bolonha engravatados de nó largo, mágicos, curandeiros, estrelas mediáticas, locutores de intimidades, escritores feitos em “hora nobre” televisiva, jovens recém-chegados ao poder e chefs de kitchen, esses poetas do design gastronómico e da mise en plat de supremo gosto, palco para danças de alface, pepino e fragmento único de lasca de peixe desconhecido – uma aventura ultra congelada por certo.
Mas, no poder nunca tínhamos tido nada assim. Portas, Cavaco e Passos desafinam com uma coerência trágica nunca havida. É uma coerência de autoconvencimentos vários. Portas é o campeão do chico-espertismo, hábil no circo da política, perito em golpismos tácticos, em recuar no avanço e avançar no recuo, instrumentalizando quem for, Cavaco é um perito em imobilidade, campeão de águas sempre paradas que só mexeu em algo quando havia Europa em contante, com os resultados sabidos nas pescas, nas ferrovias, na agricultura, etc., Passos, já chegado depois da massa financeira convertida em dívida – o dinheiro é o mesmo - um político de “novo tipo”, destes que julgam que o Estado é uma empresa e pode ser uma empresa e que a política são os negócios num mundo em que o mundo são os mercados e em que ele, Primeiro-Ministro é um tipo que decide sozinho porque decide e acabou-se, campeão de tautologias – pelos vistos esta última decisão é a de ser enquanto Primeiro-Ministro o último dos ministros quanto a competências orgânicas, fica mesmo só com os palpites, porventura será porta-voz, para além da Cultura claro. Uma maioria, um Presidente e um governo da mesma direita é um desastre completo. Na realidade esta tripla é o cúmulo da inconsistência política elevado ao quadrado, a cúpula do vazio. Nada têm a propor, nenhuma ideia de futuro, nenhum projecto para Portugal. Está provado ao fim destes dois anos. Onde, na lógica de uma, pelo menos imaginável, direita competente já estaríamos? Nas metas que perseguem, a caminho, num caminho? Nunca a política foi tão parecida com um poker de intrigas como agora, com a pequena política – só há pequena política, os desígnios nacionais submergem na subalternização da própria pequena politica ao feitio individual. Estes senhores não cedem, são fronteiras de individualismo, cada um o seu Estado em contraponto de posições, numa negociação permanente de importâncias pessoais que ofende o povo pois nada tem de estratégico nem de ético. A fulanização atingiu o seu absoluto. O que se passou foi um golpe de Estado montado por Portas em que Portas passou a Primeiro-Ministro e que provou que Passos se agarra ao poder a qualquer preço. Ele bem sabe que no que aí vem ele não existe. Resta-nos aguardar que o desmoronamento do desmoronado governo seja o apocalipse de Belém também. Os outros caíram de podres, com a aceleração da história as coisas são hoje mais rápidas e múltiplas, condicionadas também pela multiplicação dos canais da sua espectacularização. O poder vive hoje para organizar no bastidor o espectáculo, como outrora vivia na imagem estável para se organizar poder no bastidor. Nessa época as eminências pardas eram relevantes e agiam pardamente nas entrelinhas cosidas da sombra comprada, agora a eminência parda coincide com a estrela político-mediática e teremos, entretanto, de os gramar no esplendor do seu enfadonho amadorismo.
fernando mora ramos

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O único e a sua clone promovida

A demissão de Gaspar é a demissão do governo. O falhanço de Gaspar é o falhanço do governo e da sua prática política idealmente pobre, unilateral e única. Desde que este governo governa verificamos que o país entrou em desgoverno e que mesmo os que são nele considerados, pela inteligência sistémica, melhores governantes, só conseguem minorar os estragos que a política única faz nos seus sectores – é o caso de Paulo Macedo, criatura nada simpática mas suficientemente discreta, e que tem evitado habilmente que um sector essencial como é a saúde, sempre em guerra civil latente, tenha estoirado, quando, na realidade dos hospitais, o que se passa é verdadeiramente trágico, dos tempos de espera nas urgências, às triagens amalucadas, aos “velhos” que vão morrendo, pelo desaparecimento de tratamentos e médicos, de fármacos e descontos, enquanto os trâmites burocráticos vão paulatinamente rumando os processos da sua neutralidade administrativa e legal para efeito de contas – boa burocracia contabilista em objectivo, má medicina na realidade, apesar dos excelentes médicos e profissionais, repito, excelentes. Na educação, como sabemos, a coisa não foi assim, e é muito pior o que nas escolas se pode verificar, por quem lá ande e fale – um dos problemas hoje, é mesmo o medo, o medo da represália, da mão pesada do chefe ao serviço do de cima, do acólito também. Os cursos superiores vão sendo cada vez mais como as cartas da farinha amparo e esse orgulho de sermos a primeira geração de licenciados a transbordar os limites, encontra cada vez menos correspondência na qualidade dos cursos – não esquecer que os tais rankings, para quem os segue, são os de uma Europa em perda, em retrocesso e portanto vão nivelando o que piora pela média desse pior gradativo que se instala -, havendo mesmo cursos com cadeiras com  precedentes de provas vocacionais que, por decisão inteligentíssima de Conselhos Científicos e Presidências, se compram como se compram pastilhas. Chegas ao guichet da escola superior politécnica e compras a cadeira. A perspectiva da escola empresa é total, os alunos são clientes, o ensino uma mercadoria que se vende, as aprendizagens processos de vazio cheios de nada entretenedor em muitos casos – claro que contra este estado, muitos professores, fazem o seu combate e muitas vezes solitariamente, em isolamento dado o modo como as escolas vão sendo cada vez menos equipas, para serem uma soma de pessoas que não sabem nem quem é o parceiro do lado, nem o que faz. Na cultura o desastre é total, nos museus, apesar de muitos directores e especialistas, no cinema, apesar da linha docudramática – como se diz em Moçambique - de êxito recente, nos teatros, contra tudo e contra todos, fazendo das tripas coração e regressando à militância com sacrifício das condições profissionais, com equipas reduzidas e desemprego crescente, impossibilidade de oferta aos mais novos de hipóteses de trabalho e horizontes de reportório adiados.  E por aí adiante em outros sectores. 
Isto explica-se: é o resultado da política única, de um único caminho da política, da lógica orçamentalista ligada a uma ideia única do futuro imediato, imposta à força e forçando realidades e instituições, contextos e bolsas emergentes de democracia cultural – no teatro é clara a passagem da possibilidade da existência, da inscrição, para a trincheira e mesmo para o cemitério -, que é essa ideia de que agora vamos emagrecer o estado, os portugueses, endireitar as contas públicas, inventar um país de empresários e empresas de sucesso tirado da cartola da linha financeira e como resultado directo das contabilidades de génio, pura semente ouro – não se trata de economia, como sabemos. A política é só financeira e impõe-se enquanto política ao conjunto das políticas que submete e subalterniza. Mas a coisa é ainda mais grave na medida em que é uma política para o próximo ano, uma política de “no próximo ano se inicia a recuperação” - uma política sem o prazo sequer do mandato - um próximo ano  que é para retificar o último desvio de contas previsto, o último erro e o próximo erro, até ao desastre total do mandato que o PR não tem a coragem de interromper para salvar o país de um destino ainda mais negro. Errar é humano, corrigir o erro é humano. Repetir o erro pela terceira e quarta vez é humano e, podemos dizer de modo consensual, pouco clarividente, falho de mínimos de inteligência. A que se deve isso? Ao espírito de cartilha, ao unilateralismo de raciocínio. O que caracteriza os dogmatismos é a insensibilidade aos fluxos da realidade, a preexistência incrustada no cérebro dos princípios rígidos de uma cartilha. É o caso do austeritarismo: é um dogmatismo. Mas é um dogmatismo que visa um objectivo, a  concentração totalitária da riqueza nas mãos de um poder que Toni Negri define como Império, um conjunto limitado de Estados, de Empresas Multinacionais e Instituições Globais que governam o mundo deste modo que tem relançado a miséria e a multiplicação das guerras por todo o lado, espreitando sempre a possibilidade da nova guerra útil ao Império –  não alargando muito temos Afeganistão, Koweit, Iraque, Síria e há “candidatos” previstos em linha de espera, como se intui e sabe. 
Os mercados desregulados não desgovernam sem o crescimento da pobreza e a violência generalizada, é a sua sina num momento da civilização em que estão criadas as condições de riqueza global, conhecimento e tecnologias para superar tudo isso e os arcaísmos desnecessários, sem destruição das identidades culturais, por muito que a globalização seja o seu exacto oposto.  
O desaparecimento de Gaspar é a certidão de óbito do Governo, o governo morreu, o governo era Gaspar e o espírito de Gaspar e não é necessária a novela dos segundos homens, nem do primeiro-ministro que não o era, para explicar o que seja. Isso serve para alimentar a novelazita básica e elementar, essa de um Paulo Portas que na sombra de toda a luz manobra para ser segundo porque quer ser primeiro. Primeiro-Ministro, primeiro de tudo, depois Presidente, mas mais velhinho – a longevidade crescente dos bem alimentados ajudará.  
Será que isto ainda pode piorar? Será que esta deriva radical financista continuará? Será que a destruição total do que a democracia criou continuará até que o país anorético não tenha cura? Será que a democracia cultural emergente – ela já seria na  saúde e educativa, melhor ou pior, com avanços significativos na Ciência – desaparecerá por completo com a política de vazio cultural e artístico que segue o Ministério das Finanças num país que não tem Ministério da Cultura, nem Secretaria de Estado da Cultura, mas apenas um Secretário que é subalterno directo – que luxo - do Primeiro-Ministro? Já tudo estava claro, como desastre por vir, na primeira orgânica ministerial escolhida. É que nem a via única é boa – como se sabe pelas linhas de comboio – nem o desnorte total tem um horizonte, e esse das contas é de facto a sua ausência, ninguém faz futuro apenas poupando com o que rouba aos pobres, contra a lição de Robin Hood – o xerife que parte agora, era mesmo bera, debaixo dos seus modos delicados e  slow motion, inteligência lenta. No regime da velha senhora – digna, mais que digna, ao contrário da outra, na aparência, claro – acumulámos reservas de ouro de fazer inveja aos grandes. O que eles não invejavam era o analfabetismo e a miséria que também tínhamos para exportar.

fernando mora ramos

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

As tetas da princesa

Agora diz-se top less mas sabemos que o top é prótese e as mamas, da pessoa, enquanto forem. As mamas da princesa são reais, monárquicas, devem ser olhadas portanto como os reis eram, como que tendo um sinal impresso da sua origem divina, o holograma real da distância de classe. As mamas são de algum modo mais que criação de um deus ou de Deus, a expressão da sua ordem na terra, da sua desordem. As mamas da princesa devem ser respeitadas como outras partes do corpo da princesa, o cu por exemplo para não falar da pachacha, por exemplo. É inimaginável ver-se toda a família real em biquíni, principalmente o príncipe, mas também a rainha – o que seria da rainha com biquíni, seria ela mesmo e logo o epicentro do seu próprio tsunami. Aliás o biquíni já é um modo de retirar à monarquia o seu carisma real, de realeza e colocar essa aura pelas ruas da amargura ou mesmo entre as filas intermináveis de praticantes de bronzeado. Essa é a hora de ponta específica do verão e faz tão mal como a batata frita, sendo portanto uma prática generalizada, ao contrário da missa que tem muitos não praticantes. A monarquia tem de andar sempre de gola alta mesmo que seja no pino do verão, disse o Monsenhor Lefebvre – não confundir com Henri Lefebvre - ainda lúcido. É na gola alta que está o pedigree que não é nome de cão. Aliás deveria dar o exemplo e no pino do verão, por assim dizer, cobrir-se de golas altas dos pés à cabeça. De facto esta história é chocante, a da princesa de mama ao léu, e não apenas para as revistas das coisas chocantes que por assim dizer relatam a humanidade dos grandes como um futebol de desamores, quer dizer, relatam naquele sentido de que humanidade e disparate se conjugam e também naquele outro de que humanidade e mediocridade também se conjugam amiúde - é uma palavra que temos de usar, amiúde, não há dúvida que a repetição é a nossa condição e não falo de répétition, que é um fado meu, falo mesmo de acordar todos os dias. 
Esta problemática das mamas, como a de qualquer parte do corpo, mas esta em particular, associa-se a coisas graves e a coisas menos graves. E obviamente à beleza. Ainda não ouvi um comentário à beleza das mamas da princesa nem às mamas em si, só se lêem comentários ao top que estava less. Mas nem ao top em si há comentários, porventura porque seria publicidade encapotada, o que essas revistas passam a vida a fazer, nem fazem outra coisa. Creio que neste assunto das mamas se estivéssemos em período eleitoral a princesa ganhava, mesmo que não fosse numa percentagem votante a pensar grande - poderia ganhar digamos nos pesos leves, se houvesse essa categoria no campeonato mamário. De qualquer forma as tetas são duas, o que por exemplo os homens podem dizer dos testículos, são dois, mas não podem dizer da gaita. E os testículos, mesmo em top less, nunca terão a beleza de um par de seios, têm aquela costela amarfanhada pentelhuda e ainda não há que lhes meta silicone – não tardará claro e chamar-se-ão as bolas de borracha sub-mastro, para usar um termo naval que, entre nós, é recorrente desde Vasco da Gama.
Mas não esqueçamos que as mamas são um órgão vital, amamentam e quando não começamos por aí a nossa vida exterior, quando abandonamos interior e a placenta nos deixa, mesmo podendo fazer o nosso caminho sem relação directa, labial, com a mama, parece que se fica sem as resistências adequadas e certamente sem o que na escola de chupar faz a diferença entre a consciência real de um mamilo e a de uma borracha – se fizessem isso com os gelados, se lhe tirassem leite e fruta, cacau, o que aconteceria ao planeta verão? A borracha é um progresso, como o top aliás. Sabemo-lo.
Estou a pensar na princesa agora com fio dental ou mesmo sem fio dental. O que seria mostrar a ausência do fio dental? Os fotojornalistas de coisas íntimas e ínfimas só sonham com isso. Mas mais escandaloso seria mostrar os intestinos da princesa através de uma ecografia intestinal clandestina do tipo sensacionalista, isto é acrescentado rosa ao rosa intestinal através do fotoshop pluricromático. O que nos diria o intestino da princesa de especificamente monárquico? As suas voltas seriam como as ameias da coroa que lamentavelmente usa pouco? Eu acho que a princesa deveria usar gola alta, coroa e não abrir a boca para não mostrar o céu-da-boca real. Esse seria o comportamento adequado. Não é ela princesa? Para que se meteu a top less? Será porque uma princesa inglesa só poderá fazer top less por serem palavras inglesas? Se estivesse com as mamas à mostra e não em top less não se passava nada. As pessoas diriam: está com as mamocas de fora e mais-nada, ou então, as mais conservadoras diriam, não tens dinheiro para o soutiã?
Não quero lembrar as coisas tristes em relação às mamãs e porque atraem as mamas doenças mortais. Porque exactamente são fonte de vida e dor é aí que a morte ataca. E a morte está-se nas tintas para o top less, não se vê muito esta senhora omnipresente e potente, nem a ler sensações, nem a frequentar painéis publicitários, não desmorde da sua coerência nem do caminho implacável que traça para cada um. Esta questão também são mamas, as mamas de que todos vivemos e que deveríamos, mesmo as mais banalizadas pela sorte do flash – as tratadas a preto e branco sem flash nem digital são as mais artísticas claro, com destaque para as tratadas a sépia - olhar com doçura reverencial (isto do lado da idade que em cada um faz cantar a memória de algo que já não pode ser memória sensorial, mas a imagem projectada disso para trás no tempo).
O que me choca mesmo é o silicone e pensar que muita gente faz amor, ou literalmente pratica borrachices, entre borracha e borracha. Bem sei que a borracha é dúctil mas também sei que não se eriça, que o que se eriça necessita de esticar a pele.
Olho para as mamas da princesa e fico triste, são muito pequeninas, como poderá ela vir a ser rainha? E eu até gosto de pensar naqueles que têm esse privilégio de todos os dias colher um par de maçãs sem que elas desapareçam. Oh Senhor: perdoai-me o disparate, será também Vosso e consubstancial?
fernando mora ramos