terça-feira, 29 de abril de 2014

Abril de escravos mil?



Comemorar como quem põe mais um prego no caixão é recusar a potência inscrita de liberdade, justiça e igualdade que Abril trouxe e que existe tão intacta quanto tem vindo, de novo, a tomar a forma de um desejo colectivo como o prova a manifestação abrilista, única de abrangência, clima libertador e diversidade, de 15 de Setembro de 2012. Em Portugal deseja-se um novo Abril propulsionado pelo de 1974 – é por não ter sido cumprido, tendo acontecido, à vista como uma terra boa que se julga achar, que as potencialidades são reais enquanto Abril não estiver para além da memória ou pela via da usurpação da sua carga simbólica convertido no que não é, um qualquer 25 de Novembro. Os sinais desse desejo acontecem diariamente contra uma verdade oficial que ocupa a média televisiva, em particular e estrategicamente – é uma ocupação sistémica com alibis de democracia pelo meio, tal como sucede com o Parlamento, instituição do regime que neste momento não é representativa nem da nação, nem dos imperativos de liberdade e futuro.

Ainda agora, 21 de Abril de 2014, o debate sobre o 25 de Abril com Soares, Pacheco, Freitas e Rosas mostrou e demonstrou esse desejo de democracia como programa e constrói um imaginário para estas europeias de verdadeiro plebiscito a uma alternativa e de derrube da ditadura que aí vem – os termos que se usam para caracterizar a política governativa são claros, que se está a criar uma sociedade “ não democrático e autoritária” (Pacheco), contra “os direitos humanos e a inteligência” (Soares), que “despreza as pessoas, descartáveis, governo desumano” (Freitas), “eles fingem que são democratas, é preciso derrubar este governo” (Soares).
O que é necessário fazer é o que não se fez e foi possível em embriões de novas sociabilidades destruídos policialmente pela “normalização democrática” primeiro e pela integração europeia depois – esta nunca aconteceu pela convergência entre os níveis de desenvolvimento díspares e as desigualdades nacionais, no plano do aprofundamento das democracias versus qualidade das vidas de cada país. O que aconteceu foi uma dissociação progressiva entre países numa integração subalternizante para os do Sul, europas de primeira, segunda, terceira e por-aí-fora. A bitola das desigualdades não cabe na visão mecânica das estatísticas, há portanto a considerar nos países avançados as comunidades emigrantes que, com regresso de um racismo activista, colocam questões mais que problemáticas à ideia de uma Europa da inclusão – pelo contrário, como temos visto na Alemanha, em França, na Itália e na Inglaterra. A conversa das duas velocidades oculta ainda muitas outras realidades, a velocidade em si não é uma via de integração, só tem como ideia aquela pobre ideia do desenvolvimento enquanto fenómeno quantitativo e movimento perpétuo de progresso, hoje mais que posto em causa e sinónimo de destruição do planeta. A democracia na Europa é uma questão, a economia fê-la submergir, a política foi secundarizada, existem questões de liberdade, culturais, religiosas e raciais que não são irrelevantes nem coisas do passado, resolvidas – essa Europa já não o é.
A propaganda do establishment, assumidamente pragmática, a política real, culpando-te a ti, do Sul por seres quem és em nome de uma superioridade laboral especificamente alemã lança de novo o mote da superioridade racial e está presa à venda da ideia – as ideias são marketing para o poder conservador neoliberal europeu, consumo, horizonte atingido no lugar de Deus - de um pragmático comboio de duas classes, esquecendo que muitos viajam na carga e clandestinos e outros estão parados onde nada chega, os interiores abandonados em que vivem populações idosas, além de que, nas fronteiras da Europa muitos morrem numa espécie de catástrofe constante, como acontece em Lampedusa ou Melilla. O desejo de Eldorado persegue uma figura fantasmática, mas prossegue, a terra prometida é cada vez mais um espaço securitário burocrático, fortaleza acossada. Essa propaganda que afirma que apesar de tudo continuamos a parte do mundo civilizado mais civilizada enquanto deita para o lixo justamente o estado social que a caracterizava enquanto tal, esconde também, por exemplo, que a disparidade salarial na Europa civilizada pode chegar a abismos de distância como acontecia nas sociedades asiáticas de outrora: o salário de Gaspar é de 22.400 euros, muitas pensões rurais não atingem os 250 euros e esta diferença está longe de ser aquela que se verifica no sector bancário e privado em geral, em que há indivíduos, lembremo-nos dos Jardins Gonçalves das Opus Dei que são donos de pirâmides de ouro tendo enriquecido pela via da gestão, das administrações, do tráfico de influências e da especulação.
Abril interessa pelas conquistas, praticamente destruídas - não tendo sentido uma fixação na sua reconstrução mecânica como A política alternativa – mas interessa mais pelo que encerra de não realizado ao tempo: a revolução que se viveu como experiência mas que não se enraizou como democracia real.
A tomada real do poder por um bloco social que não veja o futuro como dependência, sujeição a terceiros e pseudodemocracia massivas, devir empobrecido, desqualificado, pura imitação do que deva ser uma democracia, é decisiva. Tomada do poder por um bloco vasto que deseje um país da pluralidade das culturas que ao mesmo tempo não faça desaparecer a maravilhosa língua que nos identifica e teve um papel moldador de outros mundos, não fosse a nossa língua, uma pátria aberta aos falantes de outras línguas, matriz de pluralidades culturais, nas origens e nas consequências das partilhas com outros, vejam-se os crioulos, o português do sertão nordestino, de Moçambique, o português brasileiro, todas as formas de falar a língua que nenhum acordo travará e que beneficiariam, todas elas, de um contacto permanente e profícuo com uma matriz cuidada e amada. O que supõe uma política da língua menos obcecada pelo inglês, seja técnico ou de praia e sorria yes no dente perfilado para turista consumir... Se ao menos fosse o de Shakespeare estaria perto de uma mitologia comum greco-latina e até, já que o inglês tem o seu latim dentro, de uma matriz algo coincidente, parcialmente. O problema do português é também o da colonização da língua, a sua descaracterização fruto da política real, uma antipolítica, como o é a questão da natalidade. São questões decisivas.
Abril comemorado como o fazem oficialmente é um Abril desvitalizado, sem a sua “cafeína”, um Abril contra Abril. A normalização democrática, como a expressão trai, foi um modo de converter as conquistas que chegaram a ser direitos praticados num misto de romagem de saudade a Abril de 1974 e de alguma excitação polémica em torno da sua curiosidade histórica, tempo excêntrico, particularmente para os que não viveram Abril e a quem vendem a ideia de uma espécie de período de pés descalços no poder, de momento de loucura pouco mansa dos avós, de nenhuns brandos costumes, de desgoverno – desgoverno que agora nos conduz para o abismo e que assim olha Abril, um Abril que não foi, enquanto durou, obcecado de bancos nem em mercados, mas em população e democracia. Abril que nada teve de carnificina e que se algum sangue trouxe foi pelo anticomunismo e antissocialismo de meia dúzia é apresentado como excessivo, tresloucado, quando terrorista era o sistema a que deu fim – em Abril até o PSD era socialista e contra a exploração, falava mais em trabalhadores do que em classe média, claro que a estrutura do voto – social - era outra.
Um novo “respeitinho é que é preciso” é o que quer este “jovem poder”. Querem uma espécie de passividade contente do sacrificado – é a visão de um “cidadão” obediente ao chefe - que vota na via única da dívida como não havendo para além dela outra vida – com eles vão voltar as bandeirinhas e o corta-fitismo, as várias inaugurações para a mesma coisa inaugurada, como já acontece. A propaganda hoje omnipresente anda exultante. Eles confundem, de facto, regressão com vida e futuro com retrocesso, estão mais perto de Salazar do que dos economistas que não cessam de citar, as suas políticas são tão científicas quanto os resultados que apresentam: fome como nunca houve (25% dos portugueses no limiar da pobreza e muitos nem isso), desemprego/emigração (não se pode ler de outro modo), vulgarização e destruição do universo escolar, dos aparelhos mínimos da cultura e das artes, concepção da sociedade como uma espécie de falanstérios de vida/produção concentrados, com as pessoas a receber salários menos que mínimos e a viver em espaços urbanos degradados, população que deve estar agradecida e dobrar a cerviz pelo esforço que os governantes fazem – se eles soubessem o que custa governar! Onde é que já ouvimos isto? Um país a ser “organizado” como urbanizações degradadas de um lado e, a par, uma política de condomínios para criaturas Gold, algumas já nas prisões por branqueamento de capitais. Em Espanha o BES foi multado por coisa parecida, ter clientes ligados a essa prática. O turismo é outra das obsessões, não um turismo que respeite as identidades culturais, mas um turismo folclórico que transforme os “indígenas” em criaturas gentis, guardanapo no antebraço, a prumo vincado do ferro, mal pagos mas agradecido pelo emprego, essa raridade em vias de extinção, a servir os reformados e turistas do Centro e Norte da Europa, da China e de outras paragens em que o crescimento económico prevalece, numa conversão do litoral num outro país em que domina um inglês de troca comercial, uma espécie de colónia dos paradigmas do lazer, peixe fresco e sol, em que somos apenas os serviçais, cozinheiros, barmans, criado de mesa, camareiras, porteiros e outras profissões altamente qualificadas. A quantidade de Escolas de Hotelaria que pulularam, por um lado e de campos de golfe e resorts, por outro, mostram bem a visão que os poderes têm da relação com esses terceiros do dinheiro- resta obviamente acrescentar os universos colaterais das prostituições e da pedofilia para um quadro completo, são negócio não será!
Os tais excessos que dizem que se praticaram em Abril – Oh saudoso PREC, quantas injúrias te lançam levianamente! - não foram o suficiente para vivermos hoje uma democracia plena, tivessem esses excessos ajudado a cumprir Abril. Vivemos um simulacro. Os sinais mais evidentes disso são por certo, repito, a pobreza, 25% da população, o desemprego, a emigração que voltou, a generalização do medo e a eleição do gesto da delacção como “cidadania” premiada pelo poder. O que aconteceu nos transportes públicos recentemente, o convite a delatar quem não paga ou não valida o famoso bilhete e esta coisa do concurso das facturas com prémios Audi, revelam o enfeudamento total a uma ideia de “cidadania” exemplificada paternalmente pelo lado de uma sujeição total à contabilidade de si mesmo e ao policiamento do outro – não só vives para te organizares como burocrata de ti mesmo, ficas fichado, mas és também polícia do próximo, isto é: preenchem-te um tempo mental e controlam-te por todo o lado, nas portagens, balcões, escola, hospitais, etc., enquanto querem que sejas tu também controlador, controlador controlado. És vídeo-vigiado e nem dás por isso – o que eram visões de utopistas alucinados na literatura, vem-se insinuando como real. Tudo em nome da dívida e, não esquecer, do combate ao tal terrorismo que é alimentado pelas lógicas do antiterrorismo globalizado do Estado Espectacular Integrado. Aliás com o 11 de Setembro americano – que vale o de Allende?- os calendários e suas simbólicas datas foram revalorizados ideologicamente, perdendo força tudo o que era libertador e reforçando-se tudo o que é securitário e policial.
Voltou tudo aquilo que motivou o 25 de Abril excepto a guerra colonial. De um peso equivalente hoje e mais grave, é a perda da soberania. Se antes de Abril o poder era uma força totalitária contra o povo, que não era soberano e vivia sem direito de voto e opinião livre, não decidia o seu destino, agora a entrega da soberania à Alemanha e a organizações “internacionais” dela e dos Estados Unidos dependentes, no quadro da negação de uma Europa de soberanias interligadas livremente, faz de Portugal um país colonizado, tutelado, protectorado como assumiu o direitista Portas com orgulho de protegido – necessita ser defenestrado pois. Colonizado porque a “integração” tal como se processou é uma descaracterização da nossa identidade cultural e linguística – a história do acordo ortográfico tem um significado político pois cede na matriz para traficar uns cobres, para se inglesar na vocação comerciante, os curricula escolares de Bolonha são de um generalismo wikipédia antieuropeu e pouco português no sentido de uma identidade cultural aberta, de vulgarização reles de conteúdos de conhecimento, de redução da extensão e pluralidade do saber (está tudo na net, é com cada um, dirão! como se aprender a nadar fosse uma questão só de haver um mar, um mar infinito, claro, sem ondas nem peixes maus, alguns com grandes bocarras). O que era superior e qualificado, é inferior, vulgar e mimético, citam-se blocos de net por pura mecânica numa prática totalmente desconexa, absurda. Descontextualizada. E somos tutelados, colónia, porque não temos um governo autónomo mas um governo guiado de fora, satélite dos mercados financeiros e da Alemanha, obediente e covarde.
O que hoje sucede politicamente e na economia como sujeito único é mais inspirado no salazarismo do que na libertação que os militares trouxeram – a liberdade que é uma conquista é o princípio necessário de mais liberdade, de um enraizamento da liberdade que liberte e crie igualdade, justiça, qualidade da democracia. Governa-se sob o primado de uma ditadura financeira que, em si, não gera democracia, antes a destrói. O que o défice e a suposta política anti défice trouxeram é a instauração de uma prática do lucro constante de um núcleo restrito de credores vorazes a que chamam mercados financeiros, muito para além da expressão real do pagamento da dívida e na recusa constante de que deva ser auditada – temos todos de ir a fundo e perceber o que se passa e não ir atrás do que nos contam...
O sistema da dívida e a redução da política à contabilidade da dívida, aliados ao não questionamento da lógica especuladora do crédito, são em si um Novo Velho Regime – Salazar começou nas Finanças - o da concentração de modos lucrativos que nem sequer na economia se baseiam. O financismo é uma roleta manipulada por especuladores sem escrúpulos que, não sendo cretinos e actuando sistemicamente, têm também um certo calendário político – que significa agora, perto do acto eleitoral, o verdadeiro fogo de barragem de boas notícias numéricas quando as más continuam péssimas e os problemas por resolver? Só mesmo a inabilidade deste governo e as suas contradições infantis e constantes - não é um poder adulto -, como agora em torno do sal e assucar, imagine-se, tornam a propaganda mais vulnerável do que eles gostariam, fruto de uma incompetência política levada a extremos, bebida nas juventudes partidárias e no desprezo pelo estudo e conhecimento, pelo tempo - são golpistas, oportunistas.
As pessoas vão atrás dos números e já não querem ouvir palavras? Tudo se resume à demagogia de uns quantos dados estatísticos a dar ao ambiente informativo – ideológico - consumível um ar científico de inevitabilidade – a tal “ciência” estatística só serve para augurar o pior, é pura astrologia ronceira, de feira. Isto quando sabemos que a desregulação é justamente o modo de controlo dos poderes especuladores e que a sua “ciência” não tem outra regra para além da arbitrariedade dos tais mercados. A desregulação, o que é ela mais do que permitir a manipulação a quem tem o poder de impedir a regulação controlando governos e lei? Se tens a faca e o queijo na mão cortas a fatia que queres para ti e desenvolves junto do outro a tua política de redistribuição para famintos em doses “homeopáticas” de relativização da fome e do medo, crias o trauma, a patologia da inevitabilidade da via na cabeça do consumidor, enterrado cidadão entretanto empobrecido, precário, zé-ninguém.
Abril fez-se contra a guerra, contra a exploração, contra a PIDE/DGS, contra a miséria, contra o analfabetismo, contra a condição periférica e o isolamento internacional – éramos um Estado pária, pois -, contra a necessidade de emigrar, contra o subdesenvolvimento, contra a escola elitista, contra a incultura, contra o abandono forçado dos campos, contra o absentismo dos terra-tenentes alentejanos, contra o trabalho precário, contra a inexistência de direitos sociais, laborais, de opinião livre, contra a proibição de organizar partidos, contra a violência terrorista do Estado fascista, contra a proibição da palavra, contra a liberdade de escrever, contra, contra… a subserviência e o medo eram fruto da omnipresença repressiva, o Estado tinha um rede de informadores e polícias que eram a extensão permanente da sua mão de ferro em todas as realidades íntimas, familiares, em todos os espaços de tentativa de organização política ou apenas de manifestação pública de ideias. O teatro, politicamente, viveu confinado, como numa reserva, sem uma verdadeira expressão pública e protestava quando podia com astúcia, Brecht era proibido, a literatura foi perseguida, as realizações públicas eram vigiadas e serviam muitas vezes para o regime fingir uma abertura que impedia.  O lápis azul era o meio ridículo de uma amputação constante da criação, a mão do censor prolongava o juízo do inquisidor, vinha de séculos de arbitrariedade.
Estamos agora não no caminho do mesmo, desse fascismo que foi o nosso, não faz sentido esse tipo de comparações como homogenias temporais, mas num caminho em que aspectos do mesmo teor repressivo, totalitário, não democrático, estão aí. A este tipo de nova ditadura chamar-se-á o quê, um fascismo pós-moderno? Não se trata apenas de um problema de nome, ele há muitos que identificam o que acontece, embora o termo financismo, por exemplo, tenha uma falta de conotação política necessária – diz uma coisa mas não diz a outra. A questão do autoritarismo social é no entanto real, na nossa vida quotidiana, profissional, pública. O ambiente que vivemos é já o resultado de um regime que se tem vindo a instalar e cujos traços essenciais são repressivos e castradores, policiais e com obsessão de omnipresença controladora, até ao sal que se consome.
A atitude da Presidente da Assembleia da República, Dr.ª Assunção Esteves, o modo displicente da resposta dada aos Capitães de Abril, de quem viveu Abril em Valpaços pela mão do pai alfaiate (e da concelhia do PSD) como diz a sua curta biografia na net, explica claramente a que ponto a instituição mais emblemática do que deve ser a democracia está contaminada na tutela pelo tique de um autoritarismo decisionista e irreflectido, “espontâneo”, tão colado à pele da Presidenta que nos faz pensar em outros tempos e em certo tipo de alienígenas. Estas pessoas não veem o que todos veem, então o que veem, são de que estranha origem, de que planeta?
Abril está por cumprir e porventura virá como uma nova Primavera, venha quando vier, no Inverno seja… e que se cumpra.
fernando mora ramos – actor/encenador




fernando mora ramos

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Economia da felicidade: vistos Gold e cadáveres em saldos

Não tem fábrica de bondade, não vi, nunca não posso crer. Mas tem falta de condições para bondade ser o que tem dentro dela. Condições é aquilo que não falta na floração, boa terra, estrume, sol e chuva, etc., na natureza assim, na humanidade semelhantemente, a floração do humano tem sua condições, a primavera dos seres necessita de todo esse bom tempo da democracia capaz de parir igualdades e afirmar diferença, as políticas da diferença são as da igualdade na diferença. Tem cientista, tem doutor, tem doutora, tem avião que voa a sol, tem que brilho do peito do sapato na ponte não sofra salpico, tem legume azul em laboratório, tem genético de tirar mais de um pinto, até três e quatro, de um ovo que vive de pinto solitário, difícil mais que Colombo pôs: endireitar onde se sabe que vai que cai é circo, aprende-se, fazer dupla de gémeos onde só cabe um com bico, mais que um futuro é mesmo ELE. Tem gente até capaz descobrir água em Marte para afundar brócolos californianos de um dia calharem nas mãos que o colham e tem porventuramente operários de lá fazer WC’S astronáuticos para papel que d’esconheceu o sujo porco original, papel de escrever intestinamente letra grossa e até tem, ninguém sabe se, lá no mesmo em Marte, fábrica de cachorro que ladre quente na mostarda se for Dijon – Dijon é França e pode vir a ser a Martinica francófoda de Marte. Tem Senhora de Fátima chinesa, não quebra nem a camartelo: milagre. Tem tudo esse pUgresso que grassou daninho d’erva pura na duna e no beco, no silêncio e na espalhafato dos emaranhados fio eléctrico suburbano com ruído de electrocução sobre os pobre seus ouvidos de, até sobre a secular termiteira de estatura pirâmide humana tem progresso turístico, no meio da seca e tem até como imaginar o dito pUgresso na profundidade dos gelos lá mesmo onde não tem onda e não chega o termómetro que tem medo de congelar e calar. A vida desse progresso tem tudo do melhor no globo, principalmente nas parte do globo que de ouro, mas mesmo nas suas zonas desensolaradas de sorte há globos para dourados, oásis de luxo no meio da lixeiragente que parece não ofende Deus. Porque então pUgresso mente a vida da gente? ELA está pior, aquela que vai mal, movida a dias, nas pernas, na língua e no céu dos dente, vai mal como uma dor funda como osso que nada tem agarrado. Há mais de comer e há mais fome, quem é de negar? Há mais casa e família abrigada em cartão de frigorífico arranha-céu. Quem diz que não? Há menos fronteira – diz-se no jornal de referência e no jornal de porcaria colorida com sensação - mas há mais gente a morrer em alfândega de golfinhos. Quantos afogados por pão são pasto de peixe voraz – golfinho não, esse fala e dá cabeçada semântica. Quem é capaz de responder? O Mediterrâneo tem vaso grego, subtileza micénica, História de H e agora o seu mar de belezas íntimas da civilização é de corpos de boiar, terra firme tremendo barrigas inchadas, corpos comidos de sal virados para o criador enquanto o tempo os não sepulta no sempre onde nem luz pode luzir, nem tem arqueodocumento por ler, no mais escuro da História, esse escuro breu galáctico que nem a soma dos buracos negros das galáxias. Nomes, quem sabe? Os cadáveres têm nome? Quem é capaz de chamar o cadáver para a mesa? Estes cadáveres sem nome viveram para ser afogados: nem de nadar tinham o ensino se nadar fosse um alfabeto praticável no infinito das vagas. Até pescadores que fogem do peixe que não tem não nadam nada. São pecadores? Não, quem não tem não é. No que é Ocidente é o contrário só quem deve tem é gente – devo, logo existo, ou, existo, logo devo, assim baptiza a Tróika o cidadacionável. Claro há muito quem deve que teme e há muita corda para enrolar nos pescoço. Nos países dos bancos quem deve é candidato a gente para pagar com o documento da dívida que galga pontualmente as portas quando a crise da crise entala mais dentro, aí essa corda de suicídios massivos e mais os danos colaterais enchem os becos e os caixotes ajanelados em abundância de sangues.A crise é a grande fábrica sistemática e a sua produtividade sempre cresce com os lucros dos únicos que não devem, os que emprestam cada vez mais caro. São accionistas planetários, só não vê isso quem no seu metro quadrado só vê a mão na ponta do braço. Gente, mesmo gente, tem VISTOS GOLD, hectares de mar que não foi feito de dólares, sem lágrimas – oh mar salgado quanto do teu sal são imigrantes subsarianos? Não compreendo esse pUgresso que está sempre a pUgredir no sentido inverso do outro que despUgressa. Esseste monstro paradoxal está parangonado em quadricromia nas manchetes e em vermelho líquido nas realidades.  Os montes amontoados de sub-humanos um dia vão florir das mãos dizem poetas, abrir riachos das bocas, falar de silêncios nos olhos em sol espantado, fazer campos charruados de umbigos unidos nas geografias vastas, árvores a crescer dos dentes, até vértices de luz em topos de pirâmides corporais - maldade genocida renascida vida? Esse puta de filho desse dia melhor nunca vem vindo mesmo quando parece vir.É tudo no mundo mais diverso que o vendido, esse diverso aí é o do marketing no tal mercado global onde só s’entra como em espaço reservado o direito de admissão: tem muitas alfândegas nele, nele se vendem as forcas que os enforcados se compram. Só miséria não tem maneira de lhe marketing, só juntar força numa só força de tronco grande a direito e melhorar, ter água potável, vacina de boa vacina, tijolo de tijolo, chão sem buraco, escola com sombra, livro, lápis, papel dos dois lados, machamba com gota a gota tecnológico de ciência de cabaça, mandioca e amendoim, peixe-serra até. Tudo desaparece: o peixe levado por gigante que fabrica peixe de lata tirado do mar que os antepassados legaram, esse mar é nosso de todos, mare nostrum, naquele latim chegado ao macua msiro, ao balanta crioulado, ao berimbau umbundo. Então? Que fazer? Até houve um russo que escreveu esse livro, não é Leninha é Lenine. Falta uma invenção: fazer uma fábrica de produzir gente boa sem certificação – certificação dá logo negócio de cabrito comer onde está amarrado, dinheiro debaixo da mesa. Essa fábrica podia estudar a sua génese na Comuna de Paris, em 1917, naquela Rússia que assaltou o Palácio de Inverno, que durou esses poucos começos de anos vinte, na Espanha de 36, na Sierra Maestra, em 68, em Paris e muitos outros, nesses começos que depois descomeçaram em burocráticas construções piramidais de mandos e posses centrais e centrais locais, planos quinquenais de grandes congressos de fantochada, com toda a certeza democráticos e sempre bem fotografados segundo as circunstâncias com lá dentro quem deve estar para fazer bem o futuro encomendado.Temos que seguir o saber do homem grande: não ter expectativa que medíocre pode virar excelente, nem bom sequer. O que não se vê e for bom existe se o que se vê e for bom se multiplicar nas mãos dos muitos, quase todos. A nada leva o clichê da mecânica burra, nem a sobranceria do poder de poder ser aquele que está mais em cima sempre a mandar que em baixo piore. Posição de missionário até pode ser de missionária, há muita forma de rimar com a vida.De pau torto nunca se verá nascer uma linha direita.      
Benjamim Ma Tola Saguate

sábado, 11 de janeiro de 2014

Definitivamente as Bahamas

Na convenção teatral burguesa um diálogo deve ser bem urdido, carpinteirado – que palavra –, correr atrás da lógica sequencial, da silogística e da argumentação contrapontada, da complementaridade simétrica. Uma coisa segue-se a outra. Portanto: nem pensamento no sentido da sua potencialidade, em bruto, fora de sítio, emergindo, nem desrazão, surdez psicológica, menos ainda incapacidade expressiva, vulgaridade a explorar no que a realidade oferece, matérias-primas de escritas. Nesta tradição, o diálogo bem feito da peça bem-feita, sobrepõe-se às virtualidades do real, mais inventivas que qualquer regra ou bom gosto e fruto de condicionamento ideológico – ideias mais comportamentos – nos territórios em que agem os sujeitos reais nas situações que nos interessam reconstruir artisticamente, diagnosticar, tendo exercitado dramaturgicamente a compreensão da sua complexidade mas sem a intenção de dar lições a quem quer que seja, antes de suscitar interrogações, novos olhares, fazer luz sobre penumbras e escuros de um modo que só o teatro é capaz de fazer, em assembleia e com prazer. 
Revelar o escondido nos mundos próximos, expor a inumanidade feita rotina é um objectivo do teatro desde o pós-guerra – na sociedade do hipercontrolo massivo já a realidade é outra, o poder omnipresente do consumismo engendra as monstruosidades que o quotidiano deita para fora como o rio que transborda e expulsa do leito o que no seu devir imparável, arrasta e sucumbe à força – o meu reino por umas sapatilhas de marca diz um adolescente, a minha vida por um corte de cabelo na moda, o meu futuro é um carro, a minha cozinha um céu, os duzentos canais televisivos o próprio Olimpo. 
Crimp diz que escreve sobre o que as pessoas falam, estrutura as coisas que ouve, observa e desenvolve experiências rítmicas e microestruturas dialogais que são recorrentes – os diálogos tropeçam no mesmo e vão avançando por movimentos concêntricos até que se fecha um círculo maior que os contém. Em Definitivamente as Bahamas o casal volta ao mesmo momento enquistado de uma crispação dialogal, repete um assunto que é disputa competitiva, por exemplo discutir se o filho esteve nas Bahamas ou nas Canárias – a memória esvai-se – e avança no tempo parando sobre um vazio que os toma para, no fim da peça, regressar ao princípio: a descoberta novo-rica do valor do silêncio na casa nova – a antiga era sob uma rota de aviões. Um silêncio que para eles pode ter estrelas de qualidade hoteleira, mas que ameaça ser tumular à medida que nada de novo são capazes de dizer um ao outro. Um ao outro? Mas quem são e o que age neles senão um exterior que está muito para além do que se nomeiam?
As formas dialogadas de Crimp não significam troca individual, fluxo afectuoso, subjectivação, mas essa crueldade das relações humanas que desvenda subtilmente, nas entrelinhas da mente, no lapso de memória, no erro involuntário, na linguagem e que revelam uma espécie de fascismo quotidiano instalado nas relações e exercido por identidades cristalizadas. Não esqueçamos que o sistema é, no fundo e em plena fabricada efervescência do consumo, o mesmo que engendrou o nazi-fascismo. 
Não são diálogos, o que escreve, mas surdez recíproca, incomunicabilidade egocêntrica, agressão, tendência homicida – em muitos casais, como na peça, o homicídio “involuntário” de longa duração é prática diária, a crueldade, um estado de alma recorrente.
Crimp diz que as pessoas reais dizem coisas incrivelmente cruéis. Em Definitivamente as Bahamas existem um polo sul e um polo norte que se atraem, Milly e Frank. Atraem-se dos extremos em que estão, de uma distância inultrapassável mas irmanada. A caracterização polar também é de Crimp. 
Milly e Frank são um casal nos sessentas, ficcionado por um autor de trinta. Crimp diz que lembram os pais mas não são os pais. Assim é a ficção, um desvio, um afastamento do que é para lá se regressar pensando que os espectadores têm um papel a desempenhar: o contrário do consumo, uma leitura, não um entretém, prazer real e não passatempo – o prazer é uma experiência interior, o charadismo entretenedor um fora em que as pessoas projectam uma sociabilidade que é ritual, fingimento de comunidade, amontoado de pessoas. 
E há a jovem Maryka, holandesa em Erasmus, o assunto do casal, do filho Mike e da nora Irene, que laqueou as trompas depois de um aborto pouco claro quanto às razões – Maryka tirou aquela família da sua rotina: o seu inglês é estranho, a racha na saia um exagero de estilo, a sua informalidade sem regra, o seu sex appeal parece motivar um estremecimento na família, presa num voyeurismo algo perverso e sem assunto vital, futuro – um neto - necessitando de estímulo exterior tal como quem está num coma de passividade conformada e confortável. Para Myke, Maryka é uma excitação, um caso fácil, um motivo de exacerbação do seu sexismo mal vivido. Irene parece longe do desejo, virada para a casa e os azulejos. Mesmo os pais de Myke projectam um suposto par Mike/Maryka e Irene fotografa-os numa proximidade promissora. 
Milly é uma máquina falante e Frank um complemento, a sua resistência passiva encontra nas ausências mentais uma forma de fuga. Quando Milly está incontinente verbal ele está em nenhures, entorpecido por um vazio que o toma – nela o vazio é gritante, presença vocal, torrente. Em outras ocasiões ele tem qualquer coisa de Milly também, uma maldade contra o mundo unifica-os. São polos opostos mas o conservadorismo de ambos solda-se em torno de uma moderação defensiva de Frank, machista em território específico – dos “homens” em geral – e de um extremismo militantemente britânico de Milly, capaz de um racismo de apartheid. 
O desejo dela é uma piscina, o dele, um fim-de-semana de visita aos bolbos na Holanda. Tanto a piscina como o fim-de-semana são em conta: ela arranja um homem barato para escavar um buraco e o fim-de-semana dele está em promoção. Há aqui uma divergência profunda... De resto efabulam a sua vida através de terceiros, o filho, a nora, Mike e Joan, a amiga de Milly. São corpos desistentes, enfiados nos sofás. Ir à cozinha é uma épica. O reaccionarismo de ambos é um imobilismo, enterrados nos sofás falam, falam, ela fala, fala, pelos cotovelos, interminavelmente. 
Para Milly tudo o que é exterior, estrangeiro, é bárbaro, só no seu universo e na sua regra doméstica as coisas são elevadas – para Mike as coisas são também assim, Maryka, a jovem holandesa sabe certamente Afrikans – qualquer holandês o sabe - e é uma potencial mulher de montra nas Walledjes, na realidade os que são outros são estereotipados por ele. Frank e Milly são reféns da sua pobreza cultural, parecidos com tudo o que nos vem cercando com a progressão da hegemonia americanizada dos modos de vida. Como em Menos emergências, extraordinária peça curta, o lá fora é a barbárie, o mundo civilizado são eles fechados nos seus medíocres castelinhos domésticos a olhar de longe a realidade e de perto a água parada de uma piscina. Agamben define esta pequena burguesia universal como a ausência total de identidade, essa capacidade de vestir constantemente a camisola de um outro qualquer cultural que vá preenchendo o seu fechamento chauvinista e globalizado – ser americano é ser globalmente senhor do mundo naquele sentido em que se tem o comando do planeta na mão como quem tem um comando de televisão.


fernando mora ramos

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Tangerineira

Aquela tangerineira fui eu que a pus com o Henrique. Num buraco fundo, para firmar bem a pouca raiz que tinha. O corpo quase todo dentro e ao relento – é o destino das árvores, pulmão frágil do mundo - as poucas ramagens e as duas folhas de uma árvore bebé. Foi em cima do Natal e queria selar algo entre nós, família alargada nos dois, que durasse um tempo significativo e fosse uma espécie de anteparo de tragédias por vir – eu queria uma fortaleza pactuada, um alicerce sagrado pelo que nos foi dado pelo mistério do ser aí das coisas, a tangerineira, a folha, a tangerina, o humor olfactivo da sua casca e o agridoce do sumo, aquele tipo de coisa que no som dizemos timbre e é único, dali, tu associa-lo não ao que é idêntico mas ao sítio, aquele canto do quintal e estarmos ali, nós, aqueles que somos e a nossa infância.
Onde raio encontrar, à beira do Tejo, nas adjacências da Lisboa da praia de Pedrouços – quem sabe ao que isso ecoa de velas e especiarias, que murmúrios salinos vêm na brisa – uma tangerineira com futuro no corpo adquirível? Em miúdos sonhávamos com a prenhez das grainhas. E quantas as atirávamos como deuses para a terra disponível esperando desenvolvimentos súbitos sempre demorados, espantávamo-nos do nada visível e zarpávamos dali para montar a tenda noutra paragem: a pressa da criança não é embalada pelo tempo que o tempo se dá para germinar o que seja. Os milagres na infância querem-se automáticos, rápidos como uma correria, um salto a pique do alto do guarda-fato, a janela partida numa aposta.
Onde raio encontrar uma tangerineira? A nespereira do vizinho do lado já se tinha ido mas deixou caroço do nosso lado. A nespereira, como o limoeiro, eram do início, do tempo das portas sempre abertas, a casa atravessada por corpos em flecha. Árvores primordiais, nem as víamos, éramos com elas o quintal, também nós sementes. Por isso queria a tangerineira, marca de novo início, não havia nenhuma por ali e tinha tamanho adequado, não exigia escada, a poda seria um corpo a corpo tranquilo e a copa emparelharia com as das outras, mesmo com a ameixoeira do lado, o luxo do lugar. Árvores eram portanto quatro. A ameixoeira fora milagre, um surgimento sem plano, nada a explica, ainda hoje, já só tronco, meio e robusto como seria o de um carvalho decepado na terceira idade. A ameixoeira crescera para o lado, anca capaz de fundações, ancora. E tinha uma coisa única, resinava cores impossíveis de translúcidas, falas de deuses, néctares e ambrósias – em boa verdade o quintal tornou-se na memória um olimpo de terrenidades.
Nódoas de nêspera são terríveis, nem do corpo saem. A roupa estava portanto tatuada desse sumo que escorria na vertigem da sede de tudo. Com a tangerineira seria diferente, menos definitiva a sua marca e mais perene o cheiro da casca nos dedos – bem, e sempre estamos trinta anos depois. Não é uma mania, é destino, a paixão dos aromas do quintal. Nunca mais nos larga, como o olhar pousado da mãe quando vem naquele toque do voo da ave matreira, cansaço nos ombros, as mãos sem parar. São as origens, lá para o país das matas de castanheiros e da cal. Pôr-nos a mão em cima sempre. Esgotada a mão ficava esse olhar calado e aumentado que o tempo foi cavando como uma ruga imparável.
Ele, o Henrique, era a mãe. Era completamente a mãe, mais que o mais velho e que o segundo, obsessão em linha recta – o mais velho também. Em tudo ela tentou, no lápis da escola, nas cópias à força de pachorra insistente, nos ditados, na tabuada – como com o pai dela - no topo das árvores, o mesmo sobrevoo. Afinal o que é essencial? O banho da razão? Também ela teria sido sempre, sentindo-se, alguém no topo das árvores. Onde estás tu rapariga, dizia o pai plantado na soleira imaginada. Ninguém a via. Como ele, nas alturas. Há pessoas que não desistem de ser pássaros. Fazem-se portanto às árvores como outros às cadeiras, esse enraizamento na imobilidade que nos vai ganhando para o lado de lá que sempre espreita, primeiro sob o impacto da voz dos donos, dos grandes condicionadores, depois pela voz orgânica, a da humidade essencial de tudo.
E saímos no meu Clio a caminho da tangerineira possível num Domingo, creio, pelo menos para efeito ficcional era, é, um domingo. De Domingo para domingo veio o acordo ortográfico – nada a ver com tangerineira, mas surgiu a meio dos dedos e teclado, a letra ergueu-se no ecrã maiúscula, minúscula, apetecida.
E fomos para a periferia imediata, Linda-a-Velha, Alfragide, por-ali-fora, estrada do parque de campismo – tudo isso está mudado, agora uma espécie de vazadouro tentado de fluxo contínuo de trânsito que é de um contínuo mais, ou menos, parado. As vistas são as do engarrafamento light desde que abriu o nó da Buraca, a traseira do da frente sempre ali e o tipo do lado a fingir que não me vê ou a não me ver, nem a si mesmo, interiorizando as próprias mudanças, a reduzida na mente, metida uma terceira, mete a terceira, para, arranca, paraaaarranca, as carantonhas ensimesmadas de raiva.
No tempo das estradas elas eram paisagens, bermas, campos de vinha e a prise – o que o meu pai gostava de dizer prise, este carro tem uma boa prise, a caminho de Inhambane. As árvores eram outras, o palmeiral e as mangas, já quase no Tofo. O nosso quintal é alargado, nele cabe um mundo tão largo quanto os confins do Save, a picada abrupta e as gazelas. E a bananeira que o Henrique plantou no quintal da frente – o quintal da frente não seria para fruta, era hall, mas o Rico era sem régua e esquadro, desde miúdo as voltas trocadas, tortas direitas, eram dele, muitos nascemos do avesso – a bananeira da frente era, ao fim-e-ao-cabo, a sua República, a sua paisagem vadia ali enfiada. Coqueiro mesmo era mesmo o da Palmeira, antes da curva da Macia e antes dos ananases da picada suave – quarenta quilómetros de areal - a cinco quinhentas, cinco, como as quinas, que bandeira aquela. [A última bicuda que grelhámos foi por ali, no Bilene, com o Camilo e o Leite.] E como esquecer entre as estradas vindas do fundo da tralha, pedaços de tempo e fotos, o caminho das árvores fechadas, ali à Portagem, Marvão por cima, e Escusa no sopé, tudo a desaguar numas águas ainda límpidas: milagre do atraso diria o homem do progresso fazendo contas. 
Entrámos então numa grande superfície, numa mega superfície, numa híper superfície. Uma selva de objectos e gente, multidão. Tudo ao molhe e fé na bugiganga, olhos esbugalhados de ausência e desejo de qualquer coisa a um mesmo gestempo, cada um perdido em si nas coisas. Pelos corredores fora demos com a secção naturezas vivas depois de atravessar a das naturezas mortas, corpos de frangos embalados em vácuo em fila indiana deitados sob projectores de luz higiénica e pinturas de fruta avermelhada em quadris de madeira com mais febres de cor que quando tu coras de prazeres e sabe-se como ficas.
E videiras, trincadeira preta, alicante bouchet, touriga nacional, franca, tinto cão – confesso o prazer que tenho de dizer tinto cão – tinta roriz e trincadeiras – as castas magníficas do Douro – verdelho, malvasia, baga, arinto, sirah, síria e outras e logo a seguir, romãzeiras, macieiras, ameixoeiras, diospireiros, marmeleiros, e numa das últimas esquinas em finalmente cá estamos, os citrinos. Qual a melhor tangerineira? Dá para perguntar ao empregado? Está escrito? Ou ela será de dizer eu sou a tal? Não. Nada. Do empregado de tangerinas nem um arremedo de opinião, para ele tangerina, clementina, tangera, o mesmo quê, fruta, tudo fruta. Se falássemos de pera rocha ainda vai que não era e fosse capaz, era do Bombarral. [Aparte: havia um tipo do tempo do serviço público, do telejornal novaiorquino, que dizia sempre pera e não para nem pera. Vou pera Pernambuco soa mesmo estranho. Dizia aquilo como se a pera de pera tivesse perdido o norte, ou o sumo, o que acontece à fruta calibrada, é miss fruta mas não suma.]
E pegámos na tangerineira com o ar mais saudável, as duas folhas únicas ainda verdes, sem que a palidez das luzes interiores as tivesse adoentado. De regresso a casa não há história, viemos num foguete, o objectivo clama por velocidade, operacionalidade. Começámos a cavar a cova da tangerineira como quem tem desejos de elefante. Num primeiro tempo a cova engoliu a árvore, o buraco maior que o porte arbóreo à mão. Mas lá chegámos à medida certa – tudo em uma medida – e lá a plantámos com doses de vitaminas e terra empurrada, compactada. Água, muita no baptismo, do Tejo, que a árvore queria-se irmanada com a bananeira do quintal da frente, de moçambiques fora.
Hoje quando vejo, ano a ano, a fruta renascer tenho ali o Henrique. É o meu natal, o nosso ano novo. Além disso aprendemos a tratar os cachos da bananeira: passam na dispensa dois meses, envoltos em folhas do Público e papel de alumínio. As bananas ficam gourmet com tanto cuidado narrativo. E são as dele.
fernando mora ramos

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Há o queixo


Há o queixo-biqueira
E o queixo-quadrado
Na o’neilliana eira
No país malfadado
Do queixo-biqueira
Se espera a barata
Que em pose foleira
Traga na asa a prata
Que no prego renda
A preguiça e a venda
Que chico-esperto é
Forma de ser e polé
Do queixo-quadrado
Nada virá inesperado
É mesmo alternância
O mesmo do mesmo
Entre fome e ganância
É o preço o remesmo
Antes biqueira do chico
Que o nobre alpiste
Do quadrado em riste
Ora mostre lá o bico


fernando mora ramos

A fábula do golpista, do coelho-oco e do cavaco-duro

Coelho Oco – Oh, Portas do poder, fechais-vos assim para mim. E a cenourinha, onde vou buscá-la que não quero cultivá-la. Conhecem algum coelho horticultor? Estive no empresariado mas apenas para projectar tocas em torno de aeródromos, tocas acústicas para atenuar o impacto sonoro-ecológico das avionetas incendiárias, uma coisa de formação para surdos aviadores toupeiras com asas, com dinheiros do quadro comunitário agrículo-aviador – temos Mar, mas temos céu que o espelha, o nosso céu é também o céu da nossa ilimitada fronteira marítima – os fogos do futuro estão no futuro e o futuro é o Mar cá dentro.
Portas Falso – Eu quando fecho a porta fecho a porta, sou inexorável, irrevogávelirrepetível, irra… cionacio, na…cio…nal… algo, filho de algo.
Cavaco Duro – Temos chuva na eira e chuva no nabal, algo está mal, nada proverbial. Vou à Wikipédia. Eh pá, aqui diz: água a mais não dá saúde nem faz crescer. Vou consultar o papel, o que será crescer? Se fosse crescimento era fácil, mas crescer!
Coelho Oco  Oh Portas, abre lá. O que tens tu contra a Albuquerque? Querias uma Sacadura Cabral ou outro animal?
Portas Falso – Eu quando fecho a minha porta, a minha porta, a porta do meu táxi-existencialfecho-a para sempreA minha porta fechada é uma porta ética.
Cavaco Duro – Pé de cabra: instrumento que parte portas – não é necessário no caso das portas falsas pois estas reabrem sozinhas, por si mesmas, são animadas pela flexibilização ética ilimitada, o que nada tem com a flexibilidade laboral que é uma ginástica para pobres.(monologado murmúrioGrande salada.
Gazua: instrumento que abre qualquer portas e que qualquer portas conhece. É esguio e penetra silenciosamente, parece-se com uma lingueta espalmada. Eh pá, que complicação. Pé-de-cabra ou gazua diz-me tu, Oh Madame do Leste? Ainda me boliqueimo.
Coelho Oco – Abre lá, senão acabou-se para ti e para mim e sais dos 10 mais, ficas pequenino estatístico, assim mindinho numérico, tás a topar. E eu não sou horticultor, não tenho cenouras minhas, nem nada assim. Cenoura minha gentil que te partiste abre lá…
Portas Falso – (abrindo a porta e espreitando o coelho que está de joelhos virado para os Jerónimos) A porta está fechada.
Cavaco Duro – Vou ver a lei. A lei vai safar-me.
Portas falso – (fadado pelo destino, agora na moldura da porta, em corpo inteiro para a História – reparem no H) A portas está fechada, sou um plural majestático, sou IRREVOGÁVEL.



fernando mora ramos

terça-feira, 9 de julho de 2013

Portugal

Portugal é o Entroncamento, um entroncamento constante cujos caminhos se (des)encontram e repartem em direcções não conexas. Ir para a frente é afinal recuar, regredir, o futuro. Uma encruzilhada de caminhos aleatórios, inesperados não pela surpresa absoluta da sua desconexão geométrica no corpo cobaia do país, mas pela emergência incontrolável dos factos políticos que a mediocridade, nos lugares de decisão determinante, inventa: becos em perspectiva, de cada vez que se faz uma pausa maior, resultado aliás da capacidade de autobloqueio, de estagnar – quem é o chico-esperto mais que um medíocre à procura de safar-se num desenrascanço pleno de génio? Para este tipo de gente, politiqueiros e comentadores que fazem de seus duplos de cobertura no preenchimento de um templo pleno mediático – para cada político um comentador, jornalista a caminho da política ou ex-político em travessia de regresso à política ou mesmo estrela televisiva – o pior é poderem parar para, como dizem, pensar – pensa-se o quê num país sem opinião pública mas com um coro interminável de franco-atiradores atirando frases inteligentíssimas para o vazio que as acolhe, parte deles comprados e outros completamente entregues a um suposto estilo fastio/fashion, arvorado com um suposto toque de classe no rosto entediado? O ideal seria estarem, uns e outros, sempre a viajar, longe de nós, num eterno voo diplomático, por exemplo.
Caminhamos a caminho de um nada cuja bandeira maior interior, a do desejo, é sempre gastronómica – num livro antigo sobre feitios identitários vocacionais um estrangeiro iluminado estranhava que comer se acompanhasse, entre nós, de falar de comer e grunhidos de prazer, mas que melhor haverá?
De facto, depois do entroncamento, um túnel, interminável narrativa e ao fundo desse túnel, sempre inacabado, um colorido amanhã, pleno dos avisos de que mesmo assim teremos de continuar austeros, regurgitados cantos de mestrados e mestrandos de Bolonha engravatados de nó largo, mágicos, curandeiros, estrelas mediáticas, locutores de intimidades, escritores feitos em “hora nobre” televisiva, jovens recém-chegados ao poder e chefs de kitchen, esses poetas do design gastronómico e da mise en plat de supremo gosto, palco para danças de alface, pepino e fragmento único de lasca de peixe desconhecido – uma aventura ultra congelada por certo.
Mas, no poder nunca tínhamos tido nada assim. Portas, Cavaco e Passos desafinam com uma coerência trágica nunca havida. É uma coerência de autoconvencimentos vários. Portas é o campeão do chico-espertismo, hábil no circo da política, perito em golpismos tácticos, em recuar no avanço e avançar no recuo, instrumentalizando quem for, Cavaco é um perito em imobilidade, campeão de águas sempre paradas que só mexeu em algo quando havia Europa em contante, com os resultados sabidos nas pescas, nas ferrovias, na agricultura, etc., Passos, já chegado depois da massa financeira convertida em dívida – o dinheiro é o mesmo - um político de “novo tipo”, destes que julgam que o Estado é uma empresa e pode ser uma empresa e que a política são os negócios num mundo em que o mundo são os mercados e em que ele, Primeiro-Ministro é um tipo que decide sozinho porque decide e acabou-se, campeão de tautologias – pelos vistos esta última decisão é a de ser enquanto Primeiro-Ministro o último dos ministros quanto a competências orgânicas, fica mesmo só com os palpites, porventura será porta-voz, para além da Cultura claro. Uma maioria, um Presidente e um governo da mesma direita é um desastre completo. Na realidade esta tripla é o cúmulo da inconsistência política elevado ao quadrado, a cúpula do vazio. Nada têm a propor, nenhuma ideia de futuro, nenhum projecto para Portugal. Está provado ao fim destes dois anos. Onde, na lógica de uma, pelo menos imaginável, direita competente já estaríamos? Nas metas que perseguem, a caminho, num caminho? Nunca a política foi tão parecida com um poker de intrigas como agora, com a pequena política – só há pequena política, os desígnios nacionais submergem na subalternização da própria pequena politica ao feitio individual. Estes senhores não cedem, são fronteiras de individualismo, cada um o seu Estado em contraponto de posições, numa negociação permanente de importâncias pessoais que ofende o povo pois nada tem de estratégico nem de ético. A fulanização atingiu o seu absoluto. O que se passou foi um golpe de Estado montado por Portas em que Portas passou a Primeiro-Ministro e que provou que Passos se agarra ao poder a qualquer preço. Ele bem sabe que no que aí vem ele não existe. Resta-nos aguardar que o desmoronamento do desmoronado governo seja o apocalipse de Belém também. Os outros caíram de podres, com a aceleração da história as coisas são hoje mais rápidas e múltiplas, condicionadas também pela multiplicação dos canais da sua espectacularização. O poder vive hoje para organizar no bastidor o espectáculo, como outrora vivia na imagem estável para se organizar poder no bastidor. Nessa época as eminências pardas eram relevantes e agiam pardamente nas entrelinhas cosidas da sombra comprada, agora a eminência parda coincide com a estrela político-mediática e teremos, entretanto, de os gramar no esplendor do seu enfadonho amadorismo.
fernando mora ramos